Existe um "GPS" da Idade do Bronze: eis o disco de Nebra e o seu mapa celeste com 3600 anos

O disco de Nebra, descoberto em 1999, é o mapa celeste mais antigo. Representa o Sol, a Lua e as Plêiades e foi utilizado para sincronizar os calendários lunar e solar na Idade do Bronze.

O disco de Nebra data da Idade do Bronze.
O disco de Nebra data da Idade do Bronze.

É considerado um dos mais importantes achados arqueológicos do século XX, e ainda bem que a sua existência é hoje do conhecimento público. Estamos a falar do disco de Nebra, um objeto não só de grande valor artístico, mas também de extrema utilidade prática na época.

De facto, remonta à Idade do Bronze e foi criado como uma espécie de GPS temporário para corrigir o calendário e planear todas as atividades relacionadas com a mudança das estações.

Uma descoberta surpreendente e revolucionária

O disco de Nebra foi descoberto em 1999 na colina de Mittelberg, na Áustria, perto da fronteira alemã. No entanto, não foi encontrado por arqueólogos, mas sim pelos chamados “ladrões de túmulos”. Em 2002, após várias vendas no mercado negro, foi recuperado pela polícia e colocado à disposição do público para que a ciência pudesse ter acesso a ele. Hoje faz parte do Registo da "Memória do Mundo" da UNESCO.

Este artefacto data de um período entre 1800 e 1600 a.C., o que faz com que tenha aproximadamente 3600 anos, durante a chamada Idade do Bronze.

A Idade do Bronze (aproximadamente 2300-900 a.C. na Europa) é o período pré-histórico caracterizado pela descoberta e difusão da metalurgia do bronze, uma liga de cobre e estanho.

Trata-se de um disco de 30 cm de diâmetro, feito de bronze com incrustações de ouro. Estudos publicados em 2024 na revista Scientific Reports revelaram que foram empregues técnicas de fabrico surpreendentemente sofisticadas na sua criação, o que evidencia uma cultura tecnologicamente avançada para a época.

A região de Mittelberg, na Alta Áustria, onde foi encontrado o disco Nebra.
A região de Mittelberg, na Alta Áustria, onde foi encontrado o disco Nebra.

Mas não se trata apenas de um objeto de valor artístico, pois oferece uma representação fiel do céu com o Sol, a Lua cheia e a Lua crescente, o aglomerado estelar das Plêiades e uma indicação da posição do Sol nascente nos solstícios e equinócios.

Sol, Lua e Plêiades: um calendário no céu

De acordo com a teoria mais aceite, os corpos celestes representados no disco de Nebra não foram dispostos aleatoriamente apenas para fins artísticos, mas sim de forma a que o disco pudesse ser utilizado como sincronizador entre o ciclo lunar e o ciclo das estações.

Qual é o problema? O ciclo lunar, o tempo entre uma lua cheia e a seguinte, sempre foi o método mais simples e acessível para medir a passagem do tempo. No entanto, dado que o ciclo lunar dura aproximadamente 29,5 dias, após 12 luas cheias terão decorrido 354 dias, ou seja, 11 dias a menos do que o ano solar.

Se se quisesse utilizar a Lua para calcular a data do equinócio da primavera (uma referência temporal fundamental para planear, por exemplo, as atividades agrícolas ao longo do ano), após 12 luas cheias, a data do equinócio estaria antecipada em 11 dias, e mais 11 dias no ano seguinte (11+11), e mais 11 dias no terceiro ano consecutivo (11+11+11). Para simplificar, a cada três anos seria necessário adicionar um ciclo lunar fictício (o chamado ciclo intercalar) para realinhar os calendários lunar e solar.

Parece que o disco de Nebra foi criado precisamente para saber quando realizar esta sincronização. A posição relativa do aglomerado estelar das Plêiades (na direção da constelação de Touro) é claramente visível e reconhecível a olho nu, enquanto a posição da lua crescente ou da lua cheia muda com o tempo.

Representação artística da utilização do disco de Nebra. Este era comparado periodicamente com o céu, aguardando o momento em que a disposição da Lua, das Plêiades e do Sol coincidisse com a gravada no disco, introduzindo assim o ciclo lunar intercalar.
Representação artística da utilização do disco de Nebra. Este era comparado periodicamente com o céu, aguardando o momento em que a disposição da Lua, das Plêiades e do Sol coincidisse com a gravada no disco, introduzindo assim o ciclo lunar intercalar.

Quando as suas posições relativas coincidiam exatamente com as representadas no disco, isso significava que era necessário inserir o ciclo lunar intercalar, ressincronizando assim os dois calendários. E não só isso.

Acredita-se que os arcos dourados nas laterais do disco indiquem o horizonte e os pontos de nascer e pôr do sol, o que permite identificar também as datas dos solstícios e equinócios.

O primeiro GPS da história? Significado e interpretações

Para usar uma metáfora, o disco de Nebra poderia ser considerado um "GPS" da Idade do Bronze, não espacial, mas temporal. Uma ferramenta valiosa que permitia coordenar as atividades humanas com a mudança das estações.

O seu significado é provavelmente duplo. Embora fosse um instrumento científico, ligado à observação celeste e à gestão do calendário, era também provável que tivesse um significado simbólico e religioso. Os estudos realizados sobre este disco revelaram que foi modificado várias vezes ao longo do tempo, o que sugere uma utilização prolongada.

As investigações mais recentes confirmam que não se trata de um simples objeto artístico, mas sim de um testemunho concreto do conhecimento astronómico pré-histórico europeu.

O disco de Nebra é um valioso testemunho de como, na Idade do Bronze, os seres humanos eram capazes de interpretar o céu e utilizar esse conhecimento em seu benefício, como uma ferramenta útil para as atividades quotidianas. Hoje, revela-nos a sofisticação da ciência primitiva.

Referência da notícia:

Dieck, S., Michael, O., Wilke, M. et al. (2024). Archaeometallurgical investigation of the Nebra Sky Disc. Sci Rep14, 28868. doi:10.1038/s41598-024-80545-5

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