O tabu da mudança climática: por que cientistas incentivam a falar sobre o "pior cenário possível"
Cada vez mais pesquisadores defendem a discussão aberta dos piores cenários das mudanças climáticas, não para gerar medo, mas para antecipar riscos que ainda podem ser mitigados.

Ao discutir as mudanças climáticas, a maioria dos relatórios científicos se concentra nos cenários mais prováveis, uma estratégia lógica do ponto de vista científico.
No entanto, um número crescente de especialistas acredita que essa forma de comunicar o risco está deixando de lado uma parte crucial do problema.
Esses são os processos capazes de desencadear consequências muito mais graves do que aquelas normalmente discutidas no debate público, e que poderiam ter impactos enormes nas sociedades humanas caso ocorressem, mesmo que sua probabilidade seja menor.
Um cenário extremo não significa que ele irá acontecer
A mensagem central dos cientistas é que existe uma diferença fundamental entre um cenário possível e um cenário evitável.
Por exemplo, alguns estudos consideram a possibilidade de que, ao longo dos próximos séculos, o derretimento acelerado da Groenlândia e da Antártica Ocidental cause uma elevação do nível do mar muito maior do que a atualmente projetada.
Hemos presentado el Informe sobre el estado del clima de España 2025.
— AEMET (@AEMET_Esp) June 17, 2026
Detalla los aspectos más destacados climatológicamente hablando del pasado año y las tendencias observadas en las últimas décadas.
Puedes descargarlo aquí https://t.co/VXBbGbbjg2
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Os pesquisadores insistem que esses tipos de cenários não representam a evolução mais provável do clima, mas também não podem ser descartados com o conhecimento científico atual.
O negacionismo e o derrotismo em cena
Por um lado, algumas pessoas subestimam o problema porque as consequências potenciais mais extremas nunca são explicadas. Por outro lado, quando essas consequências aparecem isoladamente em certas mensagens, podem gerar uma sensação de inevitabilidade que leva ao derrotismo climático.
Os pesquisadores acreditam que ambos os extremos dificultam a ação, porque se a população acredita que o problema é menos grave do que realmente é, a percepção do risco diminui. Por outro lado, se as pessoas pensam que tudo está perdido, a motivação para reduzir as emissões e se adaptar às mudanças climáticas também desaparece.
Uma nova avaliação global de risco climático
Os pesquisadores destacam que a última grande avaliação focada especificamente nos riscos climáticos globais já tem mais de uma década. Desde então, o conhecimento científico avançou consideravelmente e novas evidências surgiram a respeito de processos potencialmente irreversíveis.
The IPCC scenario developers have officially dropped RCP8.5 the high-emissions pathway that was treated for years as the default business-as-usual scenario in thousands of climate studies.
— Dr. Ronan Connolly (@1RonanConnolly) May 26, 2026
We at CERES were among the first to criticise it in the peer-reviewed literature pic.twitter.com/wgQGwcaXTA
Portanto, eles propõem o desenvolvimento de uma nova avaliação internacional que analise tanto os melhores quanto os piores cenários plausíveis, para que governos, empresas e cidadãos tenham uma visão mais completa das possíveis consequências das decisões atuais.
Compreender os riscos para poder evitá-los
A mensagem final dos cientistas é clara: conhecer os piores cenários não significa presumir que eles ocorrerão. Pelo contrário, ter uma avaliação de risco rigorosa permite um melhor planejamento de estratégias de mitigação e adaptação antes que seja tarde demais.

Tudo isso em um contexto onde cada décimo de grau conta, e entender o que pode acontecer, e o que ainda temos tempo para evitar, pode se tornar uma das ferramentas mais importantes para enfrentar as mudanças climáticas nas próximas décadas.
Referência da notícia
Stott, Peter. (2026). Why climate scientists need to talk more about the very worst‑case scenarios.