Agora é oficial: NOAA declara a formação do El Niño

A mudança no status da NOAA não representa uma virada repentina nas condições do Pacífico, mas sim a formalização de um processo que vinha se desenhando ao longo dos últimos meses.

Anomalia diária de temperatura da superfície do mar no dia 9 de junho de 2026 mostra um intenso aquecimento no Oceano Pacífico Equatorial. Créditos: NASA Overview.
Anomalia diária de temperatura da superfície do mar no dia 9 de junho de 2026 mostra um intenso aquecimento no Oceano Pacífico Equatorial. Créditos: NASA Overview.

A NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) declarou oficialmente o retorno do El Niño no Pacífico equatorial em sua atualização mensal sobre o fenômeno, divulgada nesta quinta-feira (11).

Discussão diagnóstica do El Niño Oscilação-Sul atualizada nesta quinta-feira (11) pela NOAA.
Discussão diagnóstica do El Niño Oscilação-Sul atualizada nesta quinta-feira (11) pela NOAA.

O novo relatório, conhecido como ENSO Diagnostic Discussion elevou o status do sistema de alerta para "El Niño Advisory", que significa “Aviso de El Niño”, indicando que as condições oceânicas e atmosféricas características do fenômeno já estão estabelecidas. Confira os detalhes.

O que diz a Discussão Diagnóstica na NOAA?

Segundo a Discussão Diagnóstica do El Niño Oscilação-Sul (ENSO), divulgada pelo Centro de Previsão Climática (CPC) da NOAA nesta quinta-feira (11), as condições de El Niño se estabeleceram no último mês e devem se intensificar ao longo dos próximos meses, persistindo durante o inverno do Hemisfério Norte (2026-2027) - verão no Hemisfério Sul.

O relatório destaca que o Pacífico equatorial apresentou aquecimento acima da média em sua porção central e oriental, com o índice Niño 3.4 atingindo +0,7°C na última semana. O aquecimento foi ainda mais expressivo próximo à costa da América do Sul, onde o índice Niño 1+2 alcançou +2,1°C - categoria "muito forte".

Evolução das anomalias relativas de TSM nas regiões de monitoramento (esquerda), anomalias relativas de TSM na semana centrada em 3 de junho (direita, superior) e anomalias de TSM na camada subsuperficial (direita, embaixo). Créditos: CPC/NOAA.
Evolução das anomalias relativas de TSM nas regiões de monitoramento (esquerda), anomalias relativas de TSM na semana centrada em 3 de junho (direita, superior) e anomalias de TSM na camada subsuperficial (direita, embaixo). Créditos: CPC/NOAA.

Além do oceano mais quente, a NOAA observou sinais claros da resposta da atmosfera ao aquecimento do Pacífico, elemento essencial para a declaração oficial do fenômeno. Entre eles, destacam-se a presença de anomalias de ventos de oeste em baixos níveis, anomalias de ventos de leste em altos níveis, aumento da atividade convectiva sobre o Pacífico equatorial central e valores negativos dos índices da Oscilação Sul (SOI). O documento afirma que:

Em conjunto, o sistema oceano-atmosfera acoplado refletiu o início das condições de El Niño.

As projeções também aumentaram a probabilidade de fortalecimento do fenômeno nos próximos meses. De acordo com a média dos modelos do conjunto NMME (North American Multi-Model Ensemble), o El Niño deve atingir seu pico entre o fim de 2026 e o início de 2027. A NOAA estima 63% de chance de que o evento se torne muito forte entre novembro e janeiro, o que o colocaria entre os mais intensos desde o início dos registros modernos, em 1950.

Probabilidade de intensidade do El Niño, considerando anomalias relativas de TSM. Créditos: CPC/NOAA.
Probabilidade de intensidade do El Niño, considerando anomalias relativas de TSM. Créditos: CPC/NOAA.

Apesar disso, a agência ressalta que mesmo episódios muito intensos não produzem os mesmos impactos em todas as regiões do planeta. Eventos mais fortes tendem a aumentar a probabilidade de determinados padrões climáticos, mas não garantem que eles ocorrerão em todos os locais afetados pelo fenômeno.

Como a NOAA declara El Niño?

Um evento El Niño é declarado oficialmente pela NOAA quando as anomalias de um mês alcançam +0,5°C na região de monitoramento conhecida como Niño 3.4, no Pacífico equatorial central, somado à confiança de persistência do aquecimento nos próximos meses e à resposta atmosférica.

O fluxograma da NOAA mostra os critérios usados para caracterizar as condições de El Niño no Pacífico tropical. Créditos: CPC/NOAA.
O fluxograma da NOAA mostra os critérios usados para caracterizar as condições de El Niño no Pacífico tropical. Créditos: CPC/NOAA.

Tecnicamente, segundo os dados a própria NOAA, a anomalia relativa mensal de maio de 2026 ficou em 0,49°C, apenas 1 décimo abaixo do valor oficial. Isso se deve a uma correção que foi realizada na anomalia da semana centrada em 13 de maio, onde o valor inicialmente divulgado de +0,5°C foi rebaixado para +0,4°C nas semanas posteriores, após revisão dos cálculos.

Porém, independente deste pequeno detalhe, pela metodologia tradicional, que utiliza anomalias absolutas em vez de relativas e foi amplamente utilizada por décadas até o início deste ano, as condições já estão presentes desde meados de abril, sendo que a anomalia do mês de maio ficou em +0,94°C - já em categoria de um evento moderado.

Assim, a mudança no status da NOAA não representa uma virada repentina nas condições do Pacífico, mas sim a formalização de um processo que já vinha se desenhando ao longo dos últimos meses.