A temporada de chuvas no leste do Nordeste

Enquanto a maior parte do Brasil passa a receber menos precipitação no outono-inverno, a costa leste do Nordeste desfruta de sua estação chuvosa. Os mecanismos que explicam tais padrões climáticos possuem relação com a circulação geral da atmosfera.

Bruno César Capucin Bruno César Capucin 19 Maio 2019 - 12:38 UTC
Forte tempestade se aproximando de região costeira.

O trópico é dominado pelos ventos alísios, que sopram das zonas de altas pressões subtropicais em direção ao equador. Logo, a região Nordeste do Brasil é fortemente influenciada pelas alterações sazonais dos alísios. No outono, a alta do Atlântico Sul inicia sua marcha para o oeste na medida em que se fortalece, apresentando sua máxima intensidade e deslocamento a oeste no inverno. Estes fatores explicam o maior transporte de umidade do oceano para o leste nordestino nesta época do ano. Para se ter ideia, a média climatológica de 200 mm de precipitação no trimestre DJF na costa leste do Nordeste, sobe para valores entre 500 a 700 mm no trimestre JJA. Neste período, algumas frentes frias também alcançam o litoral da Bahia, favorecendo chuvas.

Semana passada, Salvador registrou altos valores de precipitação. No bairro Nova Brasília, a chuva acumulou 130,4 mm em 12 horas. A região metropolitana também teve diversos pontos de alagamentos e inundações devido às chuvas intensas. Em Lauro de Freitas, mais de 350 pessoas ficaram desalojadas. Além das chuvas geradas pelo transporte de umidade à zona costeira ou frentes, existem outros sistemas que atuam no leste da Região no período de outono-inverno e que são responsáveis por elevadas taxas de precipitação e impactos.

Nas latitudes tropicais, o tempo nos oferece temperaturas elevadas e ventos constantes, mas a calmaria às vezes é interrompida por fortes tempestades, algumas até severas como no caso dos ciclones tropicais. A tranquilidade meteorológica no trópico se deve a estabilidade atmosférica (inversão dos alísios), fruto dos movimentos descendentes de grande escala. Contudo, uma perturbação no fluxo dos alísios pode ser o gatilho para condições tempestuosas. Neste contexto, destaca-se um sistema de tempo que possui inúmeras denominações na literatura, a saber: ondas de leste, ondas tropicais, distúrbio tropical, distúrbio ondulatório de leste, onda de leste africana, perturbação ondulatória nos alísios etc.

As ondas de leste ocorrem em várias partes do mundo e podem apresentar características diferenciadas. No oceano Atlântico Norte, se formam principalmente a partir do jato tropical de leste da monção africana. Curiosamente, os distúrbios desse jato explicam grande parte da gênese dos furacões que atingem anualmente o Caribe e os Estados Unidos. Já as ondas de leste no oceano Atlântico Sul, embora se propaguem da costa da África em direção ao Nordeste do Brasil, elas não se associam diretamente com o jato tropical de leste, uma vez que se desenvolvem mais ao sul da máxima atividade da monção.

Mecanismos dinâmicos

Apesar das ondas de leste do Atlântico Sul não terem sua gênese completamente esclarecida na literatura, alguns estudos atribuem possíveis causas. Uma das teorias relaciona a instabilidade do escoamento devido a intensificação da Alta Subtropical no inverno, sobretudo quando fortes distúrbios na corrente de jato cruzam o Atlântico Sul.

E como se comporta o tempo durante uma onda de leste? De acordo com o modelo conceitual, a convergência dos alísios e os movimentos ascendentes se dão a leste do eixo da onda, sendo o local preferencial para os aguaceiros e trovoadas. A dianteira do eixo, a divergência do vento induz movimentos descendentes, tornando o tempo ensolarado.

Geralmente, as ondas tropicais na parte leste do Atlântico Sul não apresentam atividade convectiva. Nestas áreas oceânicas, as temperaturas mais baixas do ar e do oceano dificultam a instabilidade. Esse ambiente hostil para a evolução das ondas tropicais é configurado por dois principais fatores. Primeiro pelo transporte de ventos frios de sul para norte na borda leste da Alta Subtropical (advecção fria), e segundo pelo giro subtropical do Atlântico Sul, em que a corrente marítima de Benguela transporta águas frias para norte ao longo da costa africana, favorecendo também a ressurgência de águas frias. No entanto, no decorrer da propagação em direção ao Nordeste, as ondas de leste encontram águas mais quentes, que por fim estimulam o desenvolvimento de nuvens de chuvas e até tempestades.

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