A difícil conta do milho em 2026: por que a safra recorde do Brasil encontrou preços mais baixos?
Com preços FOB em queda e produção brasileira ainda elevada, o milho entra no radar do mercado internacional. O Brasil tenta sustentar exportações, enquanto produtores acompanham pressão externa, câmbio, fretes e ritmo da segunda safra em 2026.

O milho brasileiro chega ao meio de 2026 com uma combinação que mexe diretamente com produtores, cooperativas, tradings e consumidores: preço internacional mais baixo, safra ainda volumosa e disputa acirrada entre grandes exportadores. O grão continua estratégico para ração animal, etanol, alimentos industrializados e balança comercial, mas o mercado já mostra sinais claros de pressão.
No relatório de junho, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) indicou queda nas ofertas de exportação do milho em importantes origens globais. No caso brasileiro, a referência FOB Paranaguá caiu de US$ 231 para US$ 208 por tonelada entre maio e junho. FOB é o preço da mercadoria no porto de embarque, antes do frete internacional, e funciona como termômetro da competitividade externa.
Preço no porto cai, mas Brasil segue competitivo
A queda do milho brasileiro no porto não aconteceu isoladamente. Segundo o USDA, as ofertas argentinas também recuaram, enquanto os Estados Unidos viram seus preços baixarem com o início favorável da temporada de cultivo. A diferença é que Brasil e Argentina carregam uma safra grande, o que aumenta a oferta disponível e limita reações mais fortes dos preços.

No mercado doméstico, o movimento também aparece. O Indicador do Milho ESALQ/BM&FBovespa, calculado pelo CEPEA, estava em R$ 62,97 por saca de 60 kg em 19 de junho, com queda mensal de 2,99%. Esse valor não representa o preço internacional, mas ajuda a entender o efeito combinado de oferta interna, câmbio, demanda de compradores e paridade de exportação.
Safra cheia aumenta oferta, mas segunda safra pesa no balanço
A Conab estima a produção brasileira total de milho em 140,46 milhões de toneladas na safra 2025/26, leve queda de 0,5% frente ao ciclo anterior. O número segue elevado e mantém o Brasil entre os grandes fornecedores globais.
Os principais pontos do levantamento são:
- milho total: 140,46 milhões de toneladas;
- milho primeira safra: 29,34 milhões de toneladas, alta de 17,7%;
- milho segunda safra: 107,87 milhões de toneladas, queda de 4,7%;
- área total de milho: 22,58 milhões de hectares, aumento de 3,4%;
- produtividade média menor, com recuo de 3,8%.
Essa leitura é importante porque o mercado não olha apenas o volume final. Ele observa quando o produto entra no mercado, onde está localizado, quanto custa transportar até os portos e qual é a demanda de exportação. Uma safra grande pode pressionar preços locais, mas gargalos logísticos ou câmbio favorável podem mudar a margem de venda.
Exportações dependem de preço, logística e demanda externa
Os dados do Sumário Executivo do Milho em Grão, do MAPA, com base no Comex Stat, mostram que o Brasil exportou 7,26 milhões de toneladas de milho em grão em 2026 até a atualização de abril, movimentando US$ 1,63 bilhão. Egito, Vietnã e Irã aparecem entre os principais destinos do cereal brasileiro, o que reforça a importância do milho para mercados de ração animal e segurança alimentar fora do país.

o ponto central é que preço menor não significa, automaticamente, mercado ruim. Se o volume exportado cresce, a receita pode se manter relevante. Mas a margem fica mais sensível: câmbio, frete, armazenagem e janela de embarque passam a ter peso decisivo.
Em um mercado global com Argentina, Estados Unidos e Ucrânia competindo no mesmo tabuleiro, o Brasil precisa vender bem, escoar rápido e preservar qualidade.
Referência da notícia
United States Department of Agriculture, Foreign Agricultural Service (USDA). (2026). Grain: World Markets and Trade.
MAPA. (2026). Milho no Brasil: produção e comércio mundial.