Os danos que o clima pode trazer para a agricultura brasileira

As mudanças climáticas podem impossibilitar o cultivo de várias culturas em diferentes regiões do país, o que vai desestruturar a agricultura brasileira caso o agricultor não esteja informado e preparado para enfrentar os próximos anos.

Os danos que o clima trará para a agricultura brasileira
A agricultura brasileira não se beneficia das mudanças climáticas, e será drasticamente impactada nas próximas décadas. (imagem: Jennifer Poole)

Quando falamos sobre mudanças climáticas, a maioria das pessoas tende a tratar os agricultores como “vilões do clima”, excluindo-os de qualquer discussão relativa ao meio-ambiente. Mas a realidade é que a agricultura brasileira não se beneficia das mudanças climáticas, e será drasticamente impactada nas próximas décadas.

Hoje, 70% dos brasileiros se sustentam através da agricultura familiar, muitos deles de maneira sustentável, e uma grande parcela em situação de subsistência e pobreza. Isso equivale a cerca de 4,4 milhões de famílias. Esta parcela da população fornece a maior parte dos alimentos que consumimos e não é a grande responsável pelo desmatamento.

Dados públicos do IBAMA revelam, na verdade, que os 25 maiores desmatadores do país são grandes empresas, políticos e banqueiros cujas centenas de autuações chegam a valores superiores a 6 bilhões de reais, 10% do total de multas aplicadas por devastação da flora desde 1995. A imensa maioria deles jamais pagou suas multas e acumula outras dívidas com o poder público.

As mudanças climáticas impulsionadas pelos maiores desmatadores vão afetar principalmente os agricultores menores, que são mais vulneráveis às flutuações do mercado e podem desestabilizar toda a base do agronegócio no país.

Já é fato bem conhecido e comprovado que a concentração de gases do efeito estufa aumentou nos últimos 150 anos, e que as ações do ser humano tem influência nisso. Mesmo que alguns locais do planeta estejam esfriando, outros estão aquecendo, e na média o que observamos é um aquecimento global.

A grande questão é que as mudanças climáticas existem, mas elas não significam que o mundo vai acabar, mas sim que ele vai mudar. Pesquisadores como Nereu Streck e Cleber Maus da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) argumentam que o aumento de gases do efeito estufa parece ser inevitável, pois a queima de combustíveis fósseis não deve diminuir em nível global a curto e médio prazo.

Impactos no trigo e na soja

A princípio, a injeção destes gases na atmosfera pode ser benéfica para a agricultura, pois aumenta a eficiência da fotossíntese em culturas como a soja. No entanto, o aumento na temperatura que vem com essa injeção pode anular estes efeitos benéficos, causando um estresse na planta que compromete a sua produtividade. Isso vale para o rendimento de culturas como trigo e soja, por exemplo, que podem inclusive ter sua produtividade prejudicada.

Impactos na cana-de-açúcar

Já um estudo publicado por Marin et al. de 2013 sugere que o cenário de aquecimento global beneficiará a cana de açúcar, que pode ter um aumento de até 54% de produtividade no Sul Brasileiro. Além disso, a produtividade da cana no centro-norte de São Paulo também aumentaria, assim como a área cultivável no Sudeste.

Isso significa que, com o aquecimento global, mais regiões apresentariam um clima favorável à produção de cana de açúcar, um cenário na verdade muito bom para produção brasileira de açúcar e combustível.

Impactos no milho

Já algumas culturas, como o milho, podem ter impactos variados dependendo do local. Estudos como o de Dalmolin et al. de 2018 sugerem que na metade sul do estado do Rio Grande do Sul, o aquecimento global pode aumentar a produtividade do milho, enquanto na porção norte a produtividade vai cair, por exemplo.

Impactos no café

Já para cafeicultores, as notícias são bem piores. Como sugere um estudo de Bunn et al. de 2015, altas temperaturas reduzirão a qualidade e a produtividade tanto de café Arábica quanto Robusta, principalmente em regiões de baixa altitude.

Outro estudo de Delgado Assad et al. Mostra que em São Paulo, Goiás e Minas Gerais, 95% das regiões aptas a produzir café serão perdidas, e no Paraná esse número chega a 75%. Isso significa que a área cultivável no Brasil vai ficar restrita apenas às regiões de maior altitude.

Além disso, estudos como o de Ghini et al. Sugerem que as condições climáticas se tornarão cada vez mais favoráveis para o surgimento de pragas nas próximas décadas, como nematóides e o bicho mineiro. Elas também se tornarão cada vez mais resistentes aos pesticidas.

No entanto, nem tudo está perdido. Outros estudos como o de Zullo Jr. et al. em 2011 indicam que o extremo Sul do Rio Grande do Sul, por exemplo, terá um número muito maior de regiões aptas ao cultivo do café com o aquecimento global. Isso significa que a produção pode migrar para o Sul e para outros países como Uruguai e Argentina.

Conclusões

E, na verdade, este é o conceito principal que os produtores precisam absorver sobre as mudanças climáticas: As culturas vão mudar. O que um produtor produz hoje na sua fazenda, não conseguirá mais produzir amanhã, o que causará uma desestruturação gradual no agronegócio brasileiro ao longo das próximas décadas.

Para que o agronegócio brasileiro esteja preparado e não entre em colapso, deixando milhões de famílias no campo sem amparo, precisamos entender que o aquecimento global existe e, principalmente, juntar esforços científicos para compreender qual será seu impacto na produção brasileira ao longo das próximas décadas e qual a melhor maneira de mitigá-lo.