Mudanças na temperatura do magma determinam as diferenças nas explosões vulcânicas

Por que alguns vulcões entram em erupção de forma violenta, enquanto outros são muito menos explosivos? Uma nova pesquisa da Universidade de Manchester pode ter a resposta.

Pesquisadores mostram que as temperaturas do magma influenciam a explosividade das erupções.
Pesquisadores mostram que as temperaturas do magma influenciam a explosividade das erupções.

Por que alguns vulcões de aparência semelhante apresentam comportamentos eruptivos tão distintos? A resposta pode estar nos processos térmicos do magma, segundo uma nova pesquisa liderada pela Universidade de Manchester.

As descobertas ajudam a solucionar um debate de longa data sobre como o histórico térmico do magma influencia a cristalização antes e durante as erupções.

Formação de cristais atrasada

Ao estudar o magma da erupção de Tajogaite de 2021 em La Palma, na Espanha, pesquisadores descobriram que o "superaquecimento" pode retardar significativamente a formação de cristais à medida que o magma sobe em direção à superfície da Terra.

Durante o superaquecimento, o magma é aquecido acima da temperatura na qual os cristais são estáveis. O estudo mostra que altas temperaturas podem dissolver pequenas "sementes" de cristais preexistentes que, normalmente, ajudam a iniciar a formação dos cristais.

“A história do crescimento de cristais e bolhas pode determinar drasticamente a forma como um magma entra em erupção; em particular, à medida que mais cristais crescem, eles acabam exercendo um efeito significativo na viscosidade do magma”, explicou a Dra. Barbara Bonechi, pesquisadora associada de Manchester.

O superaquecimento também altera a estrutura interna do magma. Torna-se mais uniforme e menos capaz de suportar a nucleação ou o crescimento de novos cristais. Isto afeta a rapidez com que o magma sobe e a facilidade com que os gases vulcânicos podem escapar; ambos têm um papel importante na determinação do quão explosiva será a erupção.

“Até agora, não compreendíamos totalmente a dinâmica do crescimento de cristais em magmas que recebiam uma injeção de superaquecimento pouco antes da ascensão. No entanto, utilizando nossa inovadora e recém desenvolvida câmara de pressão transparente a raios X, combinada com a microtomografia de raios X por radiação síncrotron, podemos efetivamente observar esses processos ‘in situ’, disse ela.

Condições vulcânicas reproduzidas em laboratório

Em laboratório, pesquisadores recriaram condições vulcânicas utilizando magma da erupção de Tajogaite; esse magma pode ter sofrido superaquecimento antes da erupção e durante a ascensão.

Eles conseguiram observar a cristalização em tempo real utilizando microtomografia de raios X por radiação síncrotron no Diamond Light Source. Ao combinar esses dados com informações de experimentos *ex situ* realizados em Praga — que permitiram tempos de observação mais longos —, a equipe acompanhou os processos de cristalização sob condições controladas de alta temperatura e pressão.

Os experimentos revelaram que o magma não submetido ao superaquecimento começou a cristalizar em cerca de 20 minutos. Já o magma que havia sofrido superaquecimento levou mais de oito horas para iniciar a cristalização.

Fonte de lava durante a erupção do Tajogaite de 2021 (La Palma, Ilhas Canárias). Imagem: Jorge Alecrim.
Fonte de lava durante a erupção do Tajogaite de 2021 (La Palma, Ilhas Canárias). Imagem: Jorge Alecrim.

Os pesquisadores incorporaram os atrasos de nucleação — determinados experimentalmente — a modelos numéricos de ascensão do magma; essas simulações preveem como o magma se desloca e evolui ao atravessar a crosta terrestre.

Longas pausas na cristalização podem permitir que o magma suba rapidamente enquanto permanece relativamente fluido, potencialmente favorecendo a ocorrência de fontes de lava intensas. Em contrapartida, o magma que cristaliza mais cedo é mais viscoso e ascende mais lentamente, permitindo mais tempo para a liberação de gases e resultando em um comportamento efusivo mais brando.

As descobertas poderiam melhorar a forma como os cientistas interpretam os sinais de monitoramento vulcânico e preveem o comportamento das erupções.

“Os modelos atuais de risco vulcânico concentram-se tipicamente na química do magma, no teor de gases e nas variações de pressão”, afirma a Dra. Margherita Polacci, professora sênior de Vulcanologia em Manchester.

Este trabalho sugere que o histórico térmico pré-eruptivo e a cinética de cristalização também podem desempenhar um papel importante no controle da ascensão do magma e do comportamento eruptivo, com implicações para a avaliação de riscos vulcânicos.

Referência da notícia

Bonechi, B. et al. (2026). Superheating in mafic magmas controls clinopyroxene nucleation delay and magma ascent dynamics.