Existe Monção na América do Sul?

Um sistema de monção é definido como uma reversão sazonal na direção do vento que ocasiona em uma transição do período seco para o chuvoso. Devido a esta definição, no passado não era considerada a presença de um sistema de monção na América do Sul.

Davi Moura Davi Moura 23 Fev. 2019 - 07:14 UTC
O sistema de monção é conhecido há centenas de anos. A China, por exemplo, já conhecia a circulação de monção há 3000 anos no leste asiático.

Cerca de 2 bilhões de pessoas vivem em países em desenvolvimento na faixa tropical do planeta terra, onde o principal fator econômico destes países é a agricultura e boa parte da energia elétrica é gerada em hidrelétricas. O entendimento das variabilidades no regime de precipitação é de suma importância para o crescimento destes países.

A circulação de monção é um dos principais sistemas atmosféricos de grande escala da região tropical. Estes sistemas são definidos pela notável reversão na direção dos ventos de baixos níveis durante a transição entre a estação de inverno e verão. Esta reversão na direção dos ventos gera uma mudança no padrão de precipitação sazonal. De acordo com Ramage (1971), para classificar uma circulação atmosférica como uma monção é necessário seguir os seguintes critérios:

  • Mudança da direção predominante do vento por pelo menos 120° entre janeiro e julho;
  • A frequência média da direção predominante do vento em janeiro e julho deve exceder 40%;
  • A média do vento resultante em pelo menos um dos meses deve exceder 3 m.s-1;
  • Ao menos uma alternância de ciclone-anticiclone deve ocorrer de dois em dois anos em ambos os meses numa região de 5° de latitude-longitude.

Por não haver a reversão completa dos ventos em baixos níveis, Ramage (1971) não considerou a circulação da América do Sul como uma monção. O autor apontou que a causa da América do Sul não possuir um sistema de monção se deve ao fato de que:

  • O continente é muito estreito nas regiões sub e extratropicais, o que limita a área de formação de uma alta fria estacionária e de uma baixa térmica;
  • A ressurgência persistente das águas frias do oceano Pacífico Sul na costa oeste do continente, que mantém a temperatura da superfície do mar (TSM) menor do que a temperatura do ar na superfície do continente durante todo o ano.

Monção na América do Sul

A interpretação de Ramage (1971) começou a mudar no final dos anos 90. Zhou e Lau (1998) concluíram que o sistema de monção realmente ocorre na América do Sul. Eles analisaram a evolução sazonal de muitas características da circulação atmosférica e notaram que o desenvolvimento da monção na América do Sul se inicia durante a primavera (setembro-novembro).

A convecção profunda se desenvolve primeiro sobre o noroeste da bacia amazônica em meados de setembro e, em seguida, progride para o sudeste do Brasil. A intensidade máxima de chuva ocorre nos meses de verão. A fase de decaimento da monção começa no final do verão, quando a convecção profunda muda gradualmente para o Equador. Segundo Gan et al. (2004), a reversão dos ventos que é característica de regime de monção, só ocorre no vento zonal em toda a troposfera quando inicia a estação chuvosa e a seca.

Precipitação climatológica (mm/dia) na América do Sul para os períodos novembro-março (painel esquerdo) e abril-outubro (painel direito). Os dados são do Projeto Global de Climatologia por Precipitação (GPCP), uma mistura de dados de satélites e pluviômetros. A inversão dos ventos causa uma mudança no padrão das chuvas.

Apesar das características do sistema de monção estarem presentes na América do Sul, mudanças nos padrões atmosféricos podem ocorrer entre um ano e outro. Geralmente muitos destes eventos estão relacionados às interações entre oceano-atmosfera, principalmente sobre a região do oceano Pacífico Tropical, resultando no aparecimento natural do El Niño-Oscilação Sul (ENOS). Essas forçantes de grande escala podem afetar a circulação sobre a região tropical da América do Sul e assim, contribuir para que a estação chuvosa inicie ou termine mais cedo ou sofra um retardo, além de favorecer para que a estação chuvosa tenha precipitação acima ou abaixo do normal (Gan et al., 2016).

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