Entre o mito e a história: a longa busca pela cidade de Troia
Ruínas descobertas na atual Turquia, avanços da arqueologia e relatos da Antiguidade ajudam a desvendar os mistérios da lendária cidade que atravessou milênios entre fatos históricos e mitologia.

Troia permanece como uma das cidades mais fascinantes da história antiga. Imortalizada nos poemas atribuídos a Homero, ela ocupa um lugar singular entre a realidade histórica e a lenda. Durante séculos, estudiosos questionaram se a cidade realmente existiu ou se era apenas fruto da imaginação literária.
A fama de Troia foi construída principalmente por meio da Ilíada e da Odisseia, obras que narram a guerra entre gregos e troianos e as consequências do conflito. Os relatos transformaram personagens como Aquiles, Heitor e Ulisses em símbolos universais de heroísmo, coragem e tragédia.
Apesar de sua importância cultural, a localização da cidade permaneceu desconhecida por muito tempo. A destruição atribuída ao fim da Idade do Bronze e as transformações ocorridas na região fizeram com que Troia desaparecesse da paisagem histórica, alimentando ainda mais seu caráter lendário.
A descoberta de Hisarlik
A principal candidata a abrigar a antiga Troia é hoje a colina de Hisarlik, situada no noroeste da Turquia, próxima ao estreito dos Dardanelos. O local revelou uma impressionante sucessão de cidades construídas umas sobre as outras ao longo de milhares de anos.
Entre essas camadas, as conhecidas como Troia VI e Troia VIIa são consideradas as mais prováveis candidatas à cidade retratada nos poemas homéricos. Ambas pertencem ao período final da Idade do Bronze, época tradicionalmente associada à Guerra de Troia.
O papel de Heinrich Schliemann
A redescoberta moderna de Troia está intimamente ligada ao arqueólogo alemão Heinrich Schliemann. Fascinado pelas histórias de Homero desde a juventude, ele iniciou escavações em Hisarlik em 1870, convencido de que encontraria a cidade perdida.

Schliemann anunciou ter localizado a lendária Troia e afirmou ter descoberto o chamado tesouro do rei Príamo. Suas conclusões despertaram enorme interesse internacional e ajudaram a transformar a arqueologia em uma disciplina mais popular.
Entretanto, seus métodos foram amplamente criticados. Na busca pelas estruturas mais antigas, ele removeu e destruiu camadas arqueológicas valiosas. Pesquisas posteriores indicaram que Schliemann escavou além do nível correspondente à época da guerra descrita por Homero, eliminando evidências que poderiam ter sido fundamentais.
Uma cidade maior do que se imaginava
Novas pesquisas realizadas ao longo do século XX ampliaram significativamente o conhecimento sobre Troia. Na década de 1990, o arqueólogo Manfred Korfmann identificou uma extensa cidade baixa ao redor da cidadela principal, revelando um assentamento muito maior do que se acreditava.

As descobertas indicam que Troia era um importante centro urbano e comercial. Sua localização estratégica permitia controlar rotas entre o mundo micênico, a oeste, e os territórios hititas, a leste, favorecendo o intercâmbio econômico e cultural.
Vestígios de fortificações monumentais, edifícios de grande porte e objetos importados sugerem uma sociedade complexa e multicultural. Estimativas apontam que a população poderia ter alcançado entre 4 mil e 10 mil habitantes durante seu período de maior prosperidade.
O legado que atravessou os séculos
A destruição de Troia continua cercada de debates. Embora existam sinais de conflitos armados em algumas camadas arqueológicas, muitos especialistas acreditam que sua queda fez parte de uma crise mais ampla que atingiu diversas civilizações no colapso da Idade do Bronze.
Mesmo sem respostas definitivas, a cidade continuou exercendo enorme influência ao longo da Antiguidade. Figuras como Xerxes e Alexandre, o Grande, visitaram o local, enquanto os romanos reivindicaram descendência dos sobreviventes troianos por meio da figura de Eneias.
Mais de três mil anos após sua destruição, Troia segue viva não apenas nas ruínas de Hisarlik, mas também na literatura, no cinema e na memória coletiva. Entre fatos históricos e lendas, a cidade permanece como um dos maiores símbolos da capacidade humana de transformar acontecimentos em narrativas eternas.
Referências da notícia
Aventuras na História. Entre o mito e a história: a longa busca pela cidade de Troia. 2026