Bactérias de laguna no Rio de Janeiro ajudam cientistas a descobrir se há vida em Marte; entenda

Uma laguna de água hipersalgada no litoral fluminense pode ter semelhanças com o ambiente encontrado em lagunas localizadas sob a superfície de Marte.

A Lagoa de Araruama, no RJ, está separada do mar por um grande cordão arenoso, onde estão instaladas pequenas lagunas, como a Brejo do Espinho. Divulgação.
A Lagoa de Araruama, no RJ, está separada do mar por um grande cordão arenoso, onde estão instaladas pequenas lagunas, como a Brejo do Espinho. Divulgação.

Pesquisadores do Laboratório de Astrobiologia (AstroLab) da Universidade de São Paulo (USP) utilizam bactérias encontradas na Laguna Brejo do Espinho, na Restinga de Massambaba, Rio de Janeiro, para estudar se o planeta Marte poderia abrigar alguma forma de vida.

Isso porque as águas da laguna no litoral fluminense possuem uma salinidade extrema, e podem se assemelhar com as chamadas "salmouras" intermitentes do planeta vermelho.

Entenda mais sobre o estudo abaixo.

Que bactéria é essa e como ela pode ajudar nas pesquisas sobre Marte?

A principal bactéria estudada é a Staphylococcus nepalensis (S. nepalensis), que tem chamado a atenção dos pesquisadores da USP por ter características muito específicas. Essa bactéria tem a capacidade de sobreviver a mudanças bruscas e concentrações extremas de salinidade, então serve como modelo para entender como microrganismos toleram ambientes severos.

E esse tipo de bactéria foi encontrado na Laguna Brejo do Espinho, em Araruama, um ambiente hostil que possui salinidade extrema. Ela tem baixa profundidade média, variando entre 2 centímetros e 2 metros, o que faz aumentar a variação da salinidade ao longo do ano nas suas águas.

Dessa forma, os pesquisadores estão usando esta bactéria da laguna em experimentos de laboratório que simulam algumas condições extremas de Marte, como aquelas que são encontradas nas salmouras intermitentes — pequenos fluxos de água extremamente salgada que se formam brevemente na superfície marciana.

A laguna em Araruama é uma das maiores massas de água hipersalina permanente do mundo, superando a concentração de sal da água do mar.

Estes experimentos reproduzem o ciclo de água extremamente salgada de Marte para testar como a bactéria reage, dando pistas sobre a habitabilidade passada (ou presente) no planeta vermelho.

Ou seja, o objetivo principal da pesquisa é entender se essas salmouras marcianas poderiam reunir as condições mínimas para a sobrevivência de microrganismos extremófilos (seres vivos que conseguem se desenvolver em condições extremas).

Essas salmouras hipersalinas de Marte poderiam ocorrer durante o verão do planeta, mesmo que em quantidades muito pequenas, o que é uma informação animadora para a possibilidade de algum tipo de vida se sustentar ali.

Então, os pesquisadores querem entender como essa bactéria deve responder aos ciclos das salmouras intermitentes do verão marciano, que congelam à noite e voltam ao estado líquido durante o dia.

Durante o dia, à medida que a temperatura aumenta, a água descongela e contribui para a diluição do sal acumulado na salmoura. À noite ocorre o oposto: as soluções voltam a congelar, o que diminui a quantidade de água líquida disponível, leva a uma dessecação e ao aumento da concentração de sal da salmoura.

As salmouras em Marte são misturas de água líquida com altas concentrações de sais (como percloratos). Elas são o mecanismo mais provável para a existência de água líquida no planeta hoje. Crédito: NASA, JPL, Malin Space Science Systems.
As salmouras em Marte são misturas de água líquida com altas concentrações de sais (como percloratos). Elas são o mecanismo mais provável para a existência de água líquida no planeta hoje. Crédito: NASA, JPL, Malin Space Science Systems.

Essa variação brusca na na disponibilidade de água e concentração de sal nas salmouras marcianas submete a vida tal como a conhecemos a importantes desafios biológicos.

Os resultados futuros das pesquisas vão ajudar a entender se a capacidade adaptativa da bactéria pode ser uma via de adaptação diante de estressores ambientais em Marte.

Referência da notícia

Albergaria, D. (2026). Bactérias que vivem em laguna no Rio de Janeiro ajudam a investigar se Marte pode ser habitável.