Austrália enfrenta crise de extinção enquanto tenta proteger espécies ameaçadas

País concentra espécies únicas, mas enfrenta perda acelerada de biodiversidade provocada por destruição de habitats, espécies invasoras, doenças, mudanças climáticas e falta de recursos.

A Austrália tem algumas das espécies mais raras do mundo, como a tartaruga-do-rio-Mary, vista na fotografia, mas está perdendo esses animais em ritmo alarmante. Crédito: Christopher Van Wyk
A Austrália tem algumas das espécies mais raras do mundo, como a tartaruga-do-rio-Mary, vista na fotografia, mas está perdendo esses animais em ritmo alarmante. Crédito: Christopher Van Wyk

A Austrália, conhecida pela fauna e flora únicas, enfrenta uma grave crise de biodiversidade. Mais de 80% das espécies do país não são encontradas em nenhum outro lugar do mundo, mas o território também registra um dos maiores índices de extinção de mamíferos do planeta. Estimativas indicam que cerca de quatro espécies desaparecem a cada década.

No sudoeste do país, a floresta de Dryandra é um dos últimos refúgios do numbat, um pequeno marsupial de aparência semelhante à mistura de esquilo e tamanduá. A espécie, que já ocupou grandes áreas do sul australiano, chegou a ter menos de 50 indivíduos na região na década de 1980.

Hoje, porém, o cenário é de recuperação. O monitoramento realizado anualmente por pesquisadores e voluntários acompanha a população e contribui para estratégias de conservação. Com cerca de 3 mil animais em todo o país, o numbat deixou recentemente a lista internacional de espécies ameaçadas e passou a ser classificado como quase ameaçado.

Pressões sobre a biodiversidade

A recuperação, entretanto, contrasta com o quadro geral. A destruição de habitats para agricultura, mineração e exploração madeireira reduz e fragmenta áreas naturais. Espécies introduzidas, como raposas, gatos ferais, coelhos e sapos-cururus, também exercem forte pressão sobre a fauna nativa.

A floresta de Dryandra é um dos poucos lugares onde ainda é possível encontrar numbats vivendo na natureza. Crédito: Sharon Jones
A floresta de Dryandra é um dos poucos lugares onde ainda é possível encontrar numbats vivendo na natureza. Crédito: Sharon Jones

Os gatos ferais, por exemplo, são estimados como responsáveis pela morte de cerca de 3 bilhões de animais por ano. Doenças também ameaçam espécies importantes: a clamídia afeta coalas, enquanto o fungo quitrídio já contribuiu para a extinção de sete espécies de sapos.

As mudanças climáticas ampliam os riscos. Ondas de calor, incêndios, enchentes e alterações nos habitats afetam diretamente a sobrevivência de diferentes animais. Os incêndios do chamado “Verão Negro”, entre 2019 e 2020, mataram cerca de 3 bilhões de animais, enquanto eventos extremos posteriores atingiram áreas tão extensas que seus impactos sobre a fauna ainda são difíceis de dimensionar.

Conservação ainda enfrenta obstáculos

Apesar de iniciativas de reprodução, recuperação de habitats e controle de predadores, os esforços não acompanham a velocidade da degradação ambiental. Muitas espécies dependem de reservas cercadas e de manejo intensivo, enquanto projetos de conservação enfrentam limitações financeiras e operacionais.

A situação também preocupa porque a perda de biodiversidade afeta atividades econômicas e sociais. Produção de alimentos, turismo e construção civil dependem dos serviços prestados pelos ecossistemas. Cientistas alertam ainda para possíveis impactos sobre pesquisas em medicina, agricultura e adaptação às mudanças climáticas.

A Austrália possui oficialmente 67 espécies declaradas extintas, mas pesquisadores estimam que pelo menos 100 plantas e animais já tenham desaparecido. O número real pode ser ainda maior. Embora o ritmo registrado de extinções permaneça próximo de quatro espécies por década, cresce rapidamente a quantidade de espécies ameaçadas.

Distância entre metas e realidade

O governo australiano estabeleceu como objetivo interromper e reverter a perda de biodiversidade até 2030. Desde 2022, também ampliou investimentos em energia renovável e adotou medidas voltadas à proteção de espécies criticamente ameaçadas. Uma reforma das leis ambientais foi apresentada como a mais importante em uma geração.

A cacatua-negra-de-Carnaby é outra espécie que luta para sobreviver no sudoeste da Austrália. Crédito: Sharon Jones
A cacatua-negra-de-Carnaby é outra espécie que luta para sobreviver no sudoeste da Austrália. Crédito: Sharon Jones

Especialistas, contudo, avaliam que leis e metas não serão suficientes sem recursos e disposição política para aplicá-las. O governo federal investe cerca de A$ 700 milhões por ano na proteção da natureza, enquanto conservacionistas calculam que seriam necessários aproximadamente A$ 33 bilhões anuais.

Além da falta de financiamento, interesses econômicos dificultam decisões ambientais. A economia australiana depende fortemente da exploração de recursos naturais, enquanto setores como mineração e agricultura recebem subsídios significativos. Para pesquisadores, esse desequilíbrio reduz a capacidade de enfrentar as causas da perda de biodiversidade.

Numbat mostra que recuperação é possível

A trajetória do numbat demonstra, ao mesmo tempo, os limites e as possibilidades da conservação. Em Dryandra, a população aumentou cerca de dez vezes desde os anos 1980, graças ao monitoramento, ao controle de predadores e à reprodução em cativeiro.

Durante uma expedição recente, pesquisadores chegaram a registrar oito animais, incluindo filhotes. O resultado foi considerado um dos melhores dos últimos anos. Ainda assim, os especialistas evitam tratar a recuperação como uma vitória definitiva.

A história de outras espécies mostra o risco de retrocessos. O woylie, ou bettong-de-cauda-de-escova, chegou a apresentar recuperação suficiente para deixar a lista de espécies ameaçadas, mas voltou a ser incluído dez anos depois, em situação ainda pior. Para os conservacionistas, o exemplo reforça que recuperar uma espécie não significa que ela esteja definitivamente a salvo.

A experiência australiana evidencia, assim, um desafio global: proteger espécies exige ações contínuas, recursos e decisões capazes de enfrentar as causas da degradação ambiental. No caso do numbat, cada novo nascimento representa esperança, mas também um lembrete de que a conservação precisa continuar.

Referência da notícia

BBC Brasil. (2026). Como a Austrália, conhecida por sua fauna exuberante, tornou-se o epicentro das extinções no planeta.