Encontram no Deserto do Atacama um aterro de roupas vindas da Europa que é visível até do espaço
Mais de 60 mil toneladas de roupas provenientes da Europa acabam amontoadas no Deserto do Atacama, perto de Alto Hospicio, no Chile, e podem ser vistas do espaço.

Uma enorme pilha de roupas pode ser vista perto da cidade de Alto Hospicio, no norte do Chile, e seu tamanho aumenta a cada ano. A dimensão desse acúmulo de resíduos é tamanha que o aplicativo SkyFi permite visualizar a área por meio de imagens de satélite. As peças chegam principalmente pelo porto de Iquique, onde são desembarcadas remessas vindas da Europa e de outras partes do mundo.
Iquique faz parte das zonas de livre comércio do Chile, o que significa que uma parcela significativa das mercadorias entra no país isenta de impostos. Os lotes são então transportados para Alto Hospicio para distribuição a outros países da América Latina. Quando certas peças não encontram comprador, ficam sem destino comercial e acabam abandonadas no deserto.
O aterro têxtil do Atacama recebe milhares de toneladas
Mais de 60 mil toneladas de peças de vestuário chegam ao porto de Iquique todos os anos. As roupas usadas entram em uma cadeia de suprimentos destinada a distribuí-las para diversos mercados na América Latina; no entanto, uma quantidade significativa acaba ficando fora desse circuito.
Sem um responsável para arcar com os custos de remoção desses resíduos, parte das roupas acaba sendo descartada ilegalmente em áreas desérticas.
Vista aérea de ropa usada desechada en el desierto de Atacama, en Alto Hospicio, Iquique, Chile. El basurero de ropa más grande del mundo. No nos cansamos de arruinar al planeta. Realmente somos el cáncer de la Tierra pic.twitter.com/lddLbZ0PgR
— Juzo Calbuto (@conraro) November 29, 2021
Esforços da ONG Ekō e do coletivo chileno Desierto Vestido levaram à identificação de etiquetas de diversas marcas. Entre elas estão Old Navy, H&M, Adidas e Levi’s, bem como Zara, Hugo Boss, Under Armour, Tommy Hilfiger e Nike. A presença dessas peças ilustra a variedade das remessas que acabam se acumulando na região.
O problema se agrava quando os resíduos são queimados. Após os incêndios, resta uma superfície escura de tecido derretido — uma textura que Bastian Barria, fundador do Desierto Vestido, compara a óleo endurecido. Peças sintéticas, como as feitas de poliéster, podem liberar poluentes durante a combustão, afetando o solo, o ar e as águas subterrâneas.
Roupas usadas e a queima de resíduos afetam Alto Hospicio
Os efeitos dos incêndios também atingem os moradores das redondezas. A fumaça da queima chega a áreas habitadas, e alguns vizinhos relatam sofrer com problemas respiratórios. A preocupação concentra-se, em particular, em peças de vestuário que contêm poliéster — uma fibra derivada do petróleo que pode liberar compostos poluentes ao ser queimada.

A cidade de Alto Hospicio fica a pouca distância do depósito de resíduos e convive com essa situação há anos. Seu prefeito, Patricio Ferreira, resume o sentimento predominante entre os moradores: "Sentimo-nos abandonados. Sentimos que nossa terra foi sacrificada. Somos o lixão do mundo, e ainda não há uma solução real para esse problema", disse ele à agência global de notícias AFP.
Ferreira também se manifestou contra a imagem que o lixão gera: "Quando se pesquisa Alto Hospicio na internet, aparecem vídeos afirmando que este é o lugar mais feio da Terra. Somos uma cidade pequena situada no norte do Chile, mas é por isso que somos conhecidos". A cidade tornou-se indissociavelmente ligada ao acúmulo de roupas.
O Chile recebe até 180.000 toneladas de roupas usadas
Os dados disponíveis mostram que o problema envolve mais de 60.000 toneladas de roupas descartadas. Conforme noticiado pelo Infobae em janeiro de 2026, Iquique recebe entre 120.000 e 180.000 toneladas de roupas usadas por ano. Esse volume faz do Chile o quarto maior importador mundial de peças de segunda mão.

O caso também chegou aos tribunais. O Primeiro Tribunal Ambiental de Antofagasta responsabilizou o Estado chileno por omissão, apontando sua falha em prevenir ou controlar o acúmulo ilegal de resíduos em terrenos públicos em Alto Hospicio ao longo de vários anos. A sentença determinou um plano de recuperação ambiental de dez anos; no entanto, a decisão ainda não é definitiva, uma vez que o Conselho de Defesa do Estado recorreu à Suprema Corte.
A ONU situa a questão no contexto de uma crise muito mais ampla: "Os seres humanos geram mais de 2 bilhões de toneladas de resíduos anualmente em todo o mundo — quantidade suficiente para dar a volta ao planeta 25 vezes se acondicionada em contêineres de carga padrão —, poluindo a terra, o ar e a água, e afetando de forma desproporcional as comunidades mais pobres".

“A moda está em destaque no Dia Internacional deste ano, evidenciando o consumo impressionante de recursos e os níveis de poluição. Trata-se de uma indústria em que as tendências mudam rapidamente e as peças de roupa são frequentemente descartadas após serem usadas apenas algumas vezes. Especialistas estimam que dobrar a vida útil das roupas poderia reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 44%”, alertou a ONU.