Três glitches em um pulsar considerado silencioso podem revelar o que acontece em seu interior

Astrônomos detectaram três mudanças repentinas na rotação do pulsar PSR J1637−4642 após mais de 15 anos de observações. A estrela de nêutrons, considerada estável desde sua descoberta, apresentou três eventos conhecidos como glitches. Um deles alterou sua velocidade de rotação em quase 3 partes por milhão.

Os três glitches do PSR J1637−4642 podem ajudar a revelar o que acontece no interior das estrelas de nêutrons. Crédito: ESA
Os três glitches do PSR J1637−4642 podem ajudar a revelar o que acontece no interior das estrelas de nêutrons. Crédito: ESA

Pulsares são estrelas de nêutrons magnetizadas que giram e emitem feixes de radiação eletromagnética a partir de seus polos magnéticos. À medida que o feixe varre a direção da Terra, os radiotelescópios detectam pulsos periódicos extremamente regulares. Os pulsares são alguns dos relógios naturais mais precisos conhecidos.

A regularidade desses sinais é tão impressionante que, quando os primeiros pulsares foram descobertos em 1967, os astrônomos inicialmente consideraram a possibilidade de que fossem transmissões de uma civilização extraterrestre. O primeiro objeto recebeu o apelido de “Little Green Men 1”.

Por isso, o que aconteceu com o pulsar PSR J1637−4642 chamou atenção: após mais de 15 anos sem alterações desse tipo, o pulsar apresentou 3 glitches, mudanças em sua velocidade de rotação. Um dos eventos modificou a taxa de rotação em quase 3 partes por milhão, uma variação pequena mas significativa para um objeto tão estável.

Por que pulsares são tão precisos?

Os pulsares são extremamente precisos porque são objetos com cerca de uma massa solar concentrada em apenas dezenas de quilômetros de diâmetro. Essa compactação produz um momento de inércia enorme e, junto com a conservação do momento angular, mantém a rotação estável.

Os pulsares possuem campos magnéticos que canalizam partículas e radiação em feixes alinhados com seus polos magnéticos, produzindo pulsos à medida que a estrela gira.

A rotação, porém, não é perfeitamente constante como se achava. Os pulsares perdem energia gradualmente por meio da emissão de radiação e partículas, causando uma desaceleração lenta. Como essa variação pode ser medida com grande precisão, os períodos dos pulsos funcionam como referências temporais muito estáveis.

PSR J1637−4642

O PSR J1637−4642 é um pulsar jovem em escala astronômica, com aproximadamente 41 mil anos. Ele completa uma rotação a cada 154 milissegundos, o equivalente a cerca de 6,5 rotações por segundo. Apesar da idade e de sua elevada emissão de energia, o objeto apresentava uma rotação estável e sem glitches.

A descoberta foi feita a partir de 15,5 anos de dados do radiotelescópio Murriyang, na Austrália. Crédito: NRAO
A descoberta foi feita a partir de 15,5 anos de dados do radiotelescópio Murriyang, na Austrália. Crédito: NRAO

Essa estabilidade era particularmente interessante porque pulsares jovens e ativos podem apresentar alterações repentinas na rotação. Durante aproximadamente uma década de observações após sua descoberta, o PSR J1637−4642 permaneceu sem nenhum glitch detectado, sendo considerado um pulsar “silencioso”.

Glitches

Os astrônomos analisaram 15,5 anos de dados do radiotelescópio Murriyang, coletados entre fevereiro de 2009 e outubro de 2024. Nesse período, foram identificados 3 glitches ou aumentos abruptos na frequência de rotação do pulsar. O primeiro ocorreu por volta de 2018, aumentando a frequência em cerca de 2,7 partes por milhão.

Os outros dois eventos foram consideravelmente menores e ocorreram cerca de três anos após os anteriores. O segundo glitch produziu um aumento de apenas 14 nHz, enquanto o terceiro elevou a frequência em aproximadamente 179 nHz, apresentando intensidade intermediária.

Entendendo o interior do pulsar

Os glitches são importantes porquem fornecem uma forma indireta de investigar o interior de estrelas de nêutrons. A principal hipótese é que nêutrons superfluidos presentes no interior da estrela armazenem momento angular e transfiram parte dele para a crosta sólida. Essa transferência provoca um aumento abrupto na velocidade de rotação da crosta.

Um dos glitches aumentou abruptamente a frequência de rotação do pulsar em 2,7 partes por milhão. Crédito: Wang et al.
Um dos glitches aumentou abruptamente a frequência de rotação do pulsar em 2,7 partes por milhão. Crédito: Wang et al.

Após o evento, a rotação do pulsar retorna gradualmente a um novo equilíbrio à medida que a crosta e o superfluido interno se reajustam. A intensidade, a frequência e a recuperação de cada glitch podem fornecer informações sobre as propriedades da matéria ultradensa e sobre o acoplamento entre diferentes regiões da estrela.

Referência da notícia

Wang et al. Discovery of Three Glitches in the previously quiet pulsar PSR J1637.