Cientistas identificam áreas na Lua onde micróbios da Terra poderiam sobreviver e se tornar uma ameaça
Pegadores de carona espaciais? Uma nova pesquisa revelou que microrganismos da Terra poderiam viajar acidentalmente a bordo de missões com destino ao Polo Sul da Lua e sobreviver por anos em seus microambientes sombreados.

Dias, meses e anos passam voando na corrida incansável pelo espaço. Avanços significativos foram alcançados nas últimas duas décadas e é um fato que, a cada dia que passa, nos aproximamos de alcançar novos horizontes.
No entanto, cada passo em direção a um futuro no qual as viagens espaciais sejam algo comum levanta novas questões, desafios e problemas que precisam ser analisados sob múltiplas perspectivas. Uma das questões mais intrigantes para a comunidade científica diz respeito à sobrevivência da vida terrestre para além do nosso planeta.
E não, não precisamos deixar nossa imaginação — ou nosso alcance físico — ir "tão longe", pois trata-se, na verdade, de um novo horizonte para a sobrevivência que quase ninguém havia considerado antes, e que surgiu na forma de vida mais simples: os micróbios.
E se eles conseguissem sobreviver até mesmo na Lua? Essa questão levou pesquisadores do Centro de Voo Espacial Goddard da NASA, em colaboração com outras instituições, a identificar regiões lunares onde as condições poderiam permitir a sobrevivência de microrganismos terrestres — e, consequentemente, a avaliar riscos potenciais.
Topografia lunar: muito mais variada do que parece
Composto por basalto, anortosito e silicatos, o solo lunar difere significativamente do solo terrestre. Ele é áspero, apresentando bordas afiadas e minúsculos fragmentos de vidro vulcânico — vestígios de antigas erupções explosivas ocorridas há milhões de anos.
Além disso, quando meteoritos atingem a superfície, o calor extremo funde o material, acrescentando uma camada de poeira formada por esferas microscópicas de bordas irregulares.

A visão, há muito estabelecida, da Lua como um ambiente extremamente hostil à vida terrestre não está totalmente incorreta. O ambiente lunar apresenta temperaturas diurnas que ultrapassam 120°C, níveis extremos de radiação ultravioleta e um vácuo quase perfeito.
O que mudou? Uma pesquisa recente publicada em agosto deste ano sugere que as regiões do satélite natural permanentemente à sombra poderiam oferecer condições muito mais favoráveis à sobrevivência de microrganismos.
Para determinar isso, foram empregadas técnicas de sensoriamento remoto da superfície lunar e a análise de sua topografia, permitindo uma melhor compreensão das condições superficiais em alta resolução espacial e, assim, levando em conta os efeitos de sombreamento da topografia local.
Sombras permanentes: um novo espaço para a vida?
É importante notar que, ao contrário da Terra — que possui uma inclinação axial de aproximadamente 23,5° —, a Lua tem uma inclinação de apenas 1,5° em relação ao plano da eclíptica. Isso faz com que a luz solar incida sobre as regiões polares em ângulos extremamente baixos, projetando sombras que se estendem por quilômetros.
Essas áreas são conhecidas como regiões permanentemente sombreadas. A ausência de luz solar direta e de radiação ultravioleta resulta em temperaturas opostas às da superfície iluminada, caindo para níveis extremamente baixos.
No entanto, entre essas regiões sombreadas e as áreas iluminadas pelo Sol, existem também zonas onde o terreno bloqueia apenas parcialmente a radiação solar. Essas características geográficas criam microambientes com propriedades muito específicas no Polo Sul lunar, permitindo até mesmo a existência de gelo de água.
Microrganismos terrestres e o problema de chegarem à Lua
Considerando que a exploração lunar tripulada da NASA no âmbito do programa Artemis concentra-se especificamente no Polo Sul lunar — e que as condições em certas áreas eliminam dois dos agentes bactericidas mais potentes encontrados no espaço — surgiu a questão: o que aconteceria se certos microrganismos onipresentes chegassem à Lua?
Testes realizados por pesquisadores concentraram-se em três gêneros de bactérias e dois de fungos; entre eles, havia uma bactéria extremófila cultivada para fins de pesquisa devido à sua incrível capacidade de adaptação às condições adversas e extremas do ambiente espacial.

Os resultados revelaram um cenário fascinante, porém preocupante. Micro-organismos podem sobreviver nas regiões sombreadas da Lua. Embora não o façam da mesma maneira que na Terra, eles entrariam em um estado de dormência profunda conhecido como criptobiose.
Sem se reproduzir ou crescer, e na ausência de água e nutrientes, eles poderiam permanecer inativos por longos períodos. Visto que isso ocorre em áreas relativamente protegidas de condições extremas, os micro-organismos poderiam manter sua viabilidade por décadas, aguardando condições favoráveis.
Isso levanta uma nova preocupação, uma vez que a introdução inadvertida de micro-organismos ou matéria orgânica na Lua constituiria uma forma de contaminação do satélite natural, podendo afetar diretamente os resultados de pesquisas sobre o gelo lunar realizadas em missões futuras.
No entanto, este estudo abre uma nova perspectiva na astrobiologia e introduz novos protocolos de segurança para a exploração espacial, reconhecendo que ainda estamos longe de controlar a extensão da nossa pegada biológica nesta nova corrida espacial.
Referência da notícia
Saxena, P. et al. (2026). Potential survivable niches for microbial life on the lunar south pole.