Seca recorde na Amazônia coloca 5,2 mil localidades sob alerta hídrico

O recuo cumulativo de 3,9 milhões de hectares de cobertura florestal primária ao longo de quatro décadas enfraqueceu a barreira ecológica natural, agravando o ressecamento do solo diante de anomalias meteorológicas severas no território.

Integração entre dados do IBGE, Inmet e MapBiomas detalha a severidade do evento climático sobre assentamentos, aldeias e núcleos urbanos amazônicos. Foto: Magnific
Integração entre dados do IBGE, Inmet e MapBiomas detalha a severidade do evento climático sobre assentamentos, aldeias e núcleos urbanos amazônicos. Foto: Magnific

Um estudo divulgado pela rede MapBiomas apontou que 38% das ocupações humanas na Amazônia enfrentaram alta exposição aos efeitos do El Niño registrado em 2024. Do total de 5.673 localidades mapeadas no território, 2.172 sofreram de forma intensa com a redução de chuvas e o aumento das temperaturas.

O evento climático decorre do aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico Tropical, alterando a dinâmica de circulação atmosférica em várias regiões do planeta. Como consequência direta no bioma amazônico, a regularidade das chuvas é quebrada, favorecendo episódios severos de estiagem e elevação térmica expressiva.

Redução na superfície de água e calor acima da média histórica

Entre os meses de setembro e novembro de 2024, a cobertura de água superficial na Amazônia registrou um déficit de 1,9 milhão de hectares em relação à média observada entre 1985 e 2025. No mesmo intervalo de três meses, o índice de precipitação ficou 27% abaixo do padrão histórico da região.

Perda acumulada de 14% da vegetação nativa no bioma amazônico intensifica a vulnerabilidade da região diante dos períodos de estiagem prolongada. Foto: Magnific
Perda acumulada de 14% da vegetação nativa no bioma amazônico intensifica a vulnerabilidade da região diante dos períodos de estiagem prolongada. Foto: Magnific

Somada à falta de chuvas, a média das temperaturas máximas subiu 2,6ºC acima dos registros habituais para aquele período do ano. Essa combinação climática acelerou a perda de umidade do solo e intensificou o estresse hídrico sobre toda a vegetação nativa.

Em situações de escassez hídrica aliada a termômetros em alta, ocorre um avanço acentuado da evaporação na atmosfera. O resultado direto é a retração acentuada de igarapés, lagos e mananciais indispensáveis para a estabilidade ambiental da região.

Impactos nas comunidades e retração da cobertura vegetal

O levantamento identificou vulnerabilidades em diferentes perfis populacionais, abrangendo cidades, perímetros rurais, terras indígenas, territórios quilombolas e áreas de assentamento. A proximidade geográfica evidenciou a fragilidade dessas comunidades perante o cenário de estiagem severa.

Os registros revelam que 93% das localidades analisadas, somando 5.273 pontos habitados, situam-se em um raio de até 5 quilômetros de trechos que sofreram retração da lâmina d'água. Esse recuo alterou substancialmente a rotina dos moradores ribeirinhos e dos núcleos urbanos amazônicos.

A queda abrupta nos níveis dos rios atinge em cheio atividades de subsistência e circulação, com reflexos imediatos no transporte hidroviário, na pesca local e no fornecimento de água para consumo. Comunidades inteiras acabam isoladas devido à impossibilidade de navegação nos leitos mais rasos.

Essa vulnerabilidade meteorológica se torna ainda mais grave diante da perda acumulada de floresta. Ao longo dos 41 anos da série histórica avaliada, a Amazônia perdeu 3,9 milhões de hectares de sua cobertura verde original, correspondendo a uma diminuição de 14% da vegetação nativa.

O diagnóstico resultou do cruzamento da Coleção 11 de Cobertura e Uso da Terra com a Coleção 5 sobre Água e a coleção sobre Atmosfera do MapBiomas. Os pesquisadores também integraram estatísticas populacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e registros do Painel El Niño, mantido pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET).

Referência da notícia

MapBiomas. (2026). Mais de 2 mil localidades da Amazônia estiveram altamente expostas à seca durante o El Niño em 2024.
Fabíola Sinimbú. (2026). Seca na Amazônia atingiu 38% das áreas habitadas no último El Niño.