Os fatores que agravam a época de queimadas na Amazônia

A situação dos incêndios no Brasil é grave, e neste mês foi registrado o maior número de focos de incêndio em território nacional em 7 anos e o maior número no bioma Amazônia em 9 anos. Entenda mais sobre os fatores climáticos e antrópicos.

Carolina Barnez Carolina Barnez 29 Ago. 2019 - 12:06 UTC
O Brasil este mês teve o maior número de queimadas em 7 anos.

O Brasil está vivendo a pior ocorrência de queimadas em 7 anos e a maior parte está acontecendo na Amazônia. Há evidências de que os incêndios na Amazônia estão ligados ao desmatamento e a questões políticas. No entanto, é importante destacar que a atual situação climática também está contribuindo com esse desastre ambiental.

Primeiro devemos esclarecer que a maior parte do bioma Amazônia está dentro do nosso território, mas ele também está presente em outros países. Os focos de incêndio atuais atingem severamente não só o Brasil, como também Bolívia e Peru. Outros biomas, como Cerrado e Pampas, também estão com focos de incêndio, e é por isso que nos mapas de alerta vemos pontos em locais fora da Amazônia, como no Sul e Sudeste do Brasil e algumas regiões na Argentina.

O pico de incêndio na América do Sul, ocorre no fim do inverno e início da primavera, que é nossa estação seca. A vegetação de biomas como o cerrado é mais seca e pode entrar em combustão espontânea como mecanismo de regeneração. No entanto, a Amazônia é uma floresta úmida e só se incendeia a partir de um estímulo externo.

Incêndios propositais e desmatamento

Os incêndios propositais no Brasil são uma prática muito comum para limpar um terreno após a colheita ou após a derrubada de árvores, como parte do processo de desmatamento para a criação de áreas de pastagem. Ambos são permitidos pelo nosso Código Florestal mediante autorização prévia. O fogo, nesses casos, deve ser controlado e, o que ajuda a impedir sua propagação, pelo menos na Amazônia, é a vegetação úmida que acaba servindo como barreira.

Mesmo na estação seca, a floresta Amazônia mantém uma umidade mínima para impedir que os focos de incêndio se propaguem por grande distâncias. Porém, o aumento de áreas desmatadas agrava a situação de seca na Amazônia e contribui para o alastramento do fogo pois: 1) não há mais uma "barreira" eficaz; e 2) a diminuição ou ausência de árvores reduz a disponibilidade de umidade local.

O monitoramento do INPE mostra que os focos de incêndio ativos no mês de Agosto em 2019 (46.392) no Brasil são os maiores desde 2012 (50.926). Olhando apenas para o bioma Amazônia em território nacional, são 44.028 focos entre Janeiro e Agosto deste ano, o maior número em 9 anos - 2010 teve 56.304 focos neste mesmo período. Considerando a Amazônia legal - uma área que abrange toda bacia Amazônica no Brasil e contém cerca de 20% de Cerrado - Agosto de 2019 (60.546) já tem o maior número de focos desde 2010 (90.701).(*)

As condições climáticas de 2019, 2012 e 2010 tem algo de comum: mostram um mês de Agosto mais seco, principalmente na região do estado do Amazonas. Águas com temperatura de superfície do mar mais elevadas (anomalia positiva) Atlântico Norte tropical podem reduzir o transporte de umidade de abastece a floresta Amazônica. Este cenário ocorreu em 2005 também, o ano com maior focos de queimada no bioma Amazônia entre Janeiro e Agosto (63.764), e seu mecanismo foi descrito no artigo de Zeng e colaboradores em 2008 (Environmental Research Letters). Outros modos climáticos também atuam no aporte de umidade para Amazônia.

O monitoramento de queimadas

O INPE monitora os focos de queimada na América do Sul desde 1998 via satélites, e mantém uma das bases de dados mais longas e confiáveis. Todos os produtos produzidos pela equipe do INPE são financiado basicamente por verba pública e, pela lei de acesso a informação de 2012 (12.527/2012) são de domínio público.

Imagem fornecida pelo INPE dos alertas de queimada por satélite. Fonte: http://queimadas.dgi.inpe.br/queimadas/portal-static/situacao-atual/

É importante destacar que tanto o monitoramento de queimadas, quanto o de desmatamento disponibilizados pelo INPE, não se restringem apenas à Amazônia. O instituto divulga os resultados de outros biomas da América do Sul, como Cerrado, Pampas, Caatinga e Mata Atlântica. Por tanto, normalmente os dados que envolvem todo território nacional, contem mais de um bioma. Também são disponibilizados as informações por bioma, estado, país e para a Amazônia Legal. É fundamental que a interpretação dos dados seja feita de forma consciente, levando em conta suas diferenças e limitações.

* Os dados apresentados para o bioma Amazônia e Amazônia Legal estão disponíveis nas tabelas anuais comparativas de biomas do Brasil e de regiões especiais do Brasil - últimos anos no intervalo de 1/Jan e 28/Ago (acessados dia 29/Ago neste sítio)

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