O clima é capaz de afetar a aparência humana?

Estudos da biometeorologia apontam que as variáveis meteorológicas e o clima são responsáveis pelas diferenças na aparência dos seres humanos em partes distintas do planeta.

O clima afeta a aparência humana
Características de cada pessoa, como a cor da pele, são resultado da evolução do ser humano sob diferentes condições climáticas.

Seres humanos podem ter aparências bastante diferentes dependendo do seu local de origem. Asiáticos costumam ter pele clara e olhos puxados, enquanto africanos costumam ter pele bastante pigmentada e cabelo mais encaracolado.

O professor doutor Fabio Luiz Teixeira Gonçalves, especialista em biometeorologia, aponta que o clima e as variáveis meteorológicas podem ser o fator mais decisivo na formação destas características ao longo da evolução humana. O assunto foi abordado recentemente em webinar do Departamento de Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP).

Há indícios de que tudo começou durante a época da explosão do supervulcão Toba, na ilha de Sumatra, na Indonésia. Na época, o vulcão lançou 2800 quilômetros cúbicos de material particulado na atmosfera, e afetando diretamente o clima no planeta durante dezenas de milhares de anos.

Após o evento, os ancestrais da raça humana quase desapareceram e apenas poucos milhares de pessoas sobreviveram, formando tribos separadas e isoladas. Isso permitiu com que cada povo desenvolvesse características diferentes, sem trocas entre si. Estas características eventalmente formaram os diferentes fenótipos.

Cada um destes fenótipos regionais foi influenciado principalmente pela necessidade de sobrevivência, decorrente do clima e das condições meteorológicas sob as quais cada um dos povos precisou se desenvolver.

Estes povos se tornaram “raças” humanas diferentes?

Precisamos esclarecer que a resposta é não. Albert Jacquard, em 2006, demonstrou que o conceito de raça pode ser definido somente dentro de espécies cujos grupos foram isolados uns dos outros por um tempo suficientemente longo, a ponto de diferenciar fortemente seu padrão genético.

No ser humano moderno, a diferenciação gerada após a explosão do vulcão Toba é tão pouco pronunciada que o conceito de “raças” não é operacional. Somos todos da mesma raça, porém com fenótipos diferentes. Os genes responsáveis pelos diferentes fenótipos humanos correspondem a apenas 0,05% do DNA.

E como o clima gerou estes fenótipos diferentes?

Há muito tempo atrás, alguns dos nossos ancestrais, H. Neanderthalensis - Os chamados Neandertais - viveram num clima frio extremo durante o período glacial europeu. Por isso, desenvolveram narinas muito grandes capazes de trocar calor com o ambiente, já que o suor não funcionava de maneira eficiente (afinal, com as temperaturas negativas, a água congela facilmente).

Já o H. Sapiens, que eventualmente se tornou o ser humano moderno, possui uma habilidade muito bem desenvolvida de suar, uma adaptação necessária para regular a temperatura corporal e conseguir sobreviver ao clima quente africano, seu local de origem.

Ainda assim, ambos os povos viveram juntos durante milhares de anos. Isso significa que algumas das características dos Neandertais passaram para nossos genes e são carregadas até hoje.

Outras características que são observadas em diferentes grupos fenótipos da raça humana foram influenciados pelo clima, entre elas:

  • Tonalidades de pele mais escuras se formaram em regiões tropicais para proteger o corpo da radiação solar intensa; enquanto a pele clara no centro-norte da Europa permitia a penetração de radiação solar, mais rara na região, para síntese de vitamina D
  • Narizes finos e chatos em áreas frias ou secas vieram para proteger o epitélio nasal contra dessecamento, além de maximizar o aquecimento do ar inspirado; enquanto narinas largas e grandes, desenvolvidas em climas quentes e úmidos, facilitaram a troca de vapor dos pulmões e trato respiratório, além de ajudar no resfriamento do corpo.
  • Estaturas muito compridas e magras são comuns em regiões de clima quente porque aumentam a dissipação de calor, enquanto corpos baixos, grandes e atarracados são mais comuns em climas muito frios porque ajudam a conservar o calor.
clima, etnias
Diferença de fenótipo foram "estimuladas" nos povos por seu posicionamento no globo e, consequentemente, pela melhor adaptação ao clima local.

A forma do cabelo também é resultado do clima. Cabelos encaracolados volumosos, por exemplo, são comuns em fenótipos africanos. Eles criam uma camada protetora de ar sobre a cabeça que diminui o risco de insolação em locais extremamente quentes. Até mesmo os olhos finos dos mongóis surgiram para proteger a visão da claridade excessiva em ambientes onde o clima frio e a neve branca predominam.

Isso nos lembra que cada característica diferente dos povos deve ser celebrada como uma vitória da evolução e uma prova da capacidade que nossa raça possui de se adaptar ao clima e as condições meteorológicas do local em que vive. Sem estas diferenças de fenótipos, a raça humana provavelmente já teria sido extinta há muito tempo atrás.