Erro básico de meteorologia expõe desafio no uso de imagens de IA: você sabe o que tem de errado?

Bonitas, realistas… e erradas! Imagens geradas por inteligência artificial (IA) usadas em notícias sobre ciclones no Sul do Brasil ignoram o efeito de Coriolis e ilustram fenômenos típicos do Hemisfério Norte.

Imagens geradas por IA mostram, na verdade, furacões do Hemisfério Norte. Créditos: Reprodução/internet.
Imagens geradas por IA mostram, na verdade, furacões do Hemisfério Norte. Créditos: Reprodução/internet.

Imagens geradas por IA vêm sendo cada vez mais usadas para ilustrar matérias sobre eventos meteorológicos no Brasil. Ciclones, tempestades severas e sistemas de baixa pressão ganham representações visualmente impactantes, que ajudam a atrair a atenção do público.

O problema surge quando essas imagens, apesar de realistas, não obedecem a regras físicas básicas da atmosfera.

Em diversas publicações recentes, ilustrações criadas por IA foram usadas para representar ciclones no Sul do Brasil, mas exibiam características incompatíveis com a realidade do Hemisfério Sul.

O deslize pode passar despercebido por muitos leitores, mas revela um desafio importante na comunicação científica em tempos de automatização e excesso de informação - e desinformação. Mas, afinal, o que tem de errado com essas imagens?

Um erro que muda tudo: o sentido de rotação

O principal problema dessas imagens está no sentido de rotação do sistema atmosférico. No Hemisfério Sul, ciclones giram no sentido horário, enquanto no Hemisfério Norte o giro é anti-horário.

Essa diferença ocorre por causa do chamado efeito de Coriolis, resultado da rotação da Terra, que influencia o movimento dos ventos em grande escala.

Além disso, é importante destacar que furacões, facilmente reconhecidos pela presença de um “olho” bem definido, como o representado em muitas imagens do Hemisfério Norte são apenas um tipo específico de ciclone, que se forma sob condições muito particulares. Nem todo ciclone é um furacão.

Representação do giro de um ciclone (neste caso, um furacão) no Hemisfério Norte (esquerda) e Hemisfério Sul (neste caso, um ciclone extratropical, direita). Créditos: Organizado por Ana Maria Pereira Nunes/Meteored, com imagens da NASA.
Representação do giro de um ciclone (neste caso, um furacão) no Hemisfério Norte (esquerda) e Hemisfério Sul (neste caso, um ciclone extratropical, direita). Créditos: Organizado por Ana Maria Pereira Nunes/Meteored, com imagens da NASA.

Quando uma imagem mostra um ciclone girando no sentido errado ou associa visualmente um sistema a um furacão sem que ele reúna essas características, o erro não se limita a um detalhe técnico: trata-se de um fenômeno fisicamente distinto, com consequências distintas. Assim, a imagem deixa de cumprir um papel educativo e passa a reforçar interpretações equivocadas.

Por que a IA erra este tipo de imagem?

Um dos fatores que explicam esse tipo de falha está no desequilíbrio entre informações disponíveis sobre o Hemisfério Norte e o Hemisfério Sul, utilizados para treinar a IA.

Há muito mais registros, imagens e ilustrações de ciclones do Hemisfério Norte disponíveis na internet, o que faz com que modelos generativos “aprendam” esse padrão de giro como o “correto”, o “mais comum”.

Esse viés é semelhante ao que ocorre quando ferramentas de IA tendem a gerar imagens de pessoas escrevendo com a mão direita, por exemplo, simplesmente porque esse é o padrão mais frequente nos dados.

Imagem criada pelo Gemini com as instruções “crie uma imagem de uma menina escrevendo”.
Imagem criada pelo Gemini com as instruções “crie uma imagem de uma menina escrevendo”.

A "solução" existe, mas passa por treinamentos mais equilibrados e, principalmente, por supervisão humana qualificada.

O problema não é a IA: é como ela é usada

Esses erros não significam que a IA seja inadequada para a comunicação científica. Pelo contrário, a IA pode ser uma ferramenta poderosa quando usada com critério. Além disso, nem toda ilustração precisa ser gerada por IA.

Há vastos bancos de imagens de satélite com registros reais de ciclones no Hemisfério Sul que podem e devem ser usados.

Nesse contexto, o papel de meteorologistas e cientistas é insubstituível para validar conteúdos e garantir precisão, e esses profissionais deveriam começar a ser incluídos nas equipes jornalísticas - como a Meteored faz. Enquanto isso não acontece de forma ampla ao redor do mundo, o básico precisa ser feito por quem utiliza ferramentas de IA: a checagem das informações.

Informação coerente também é responsabilidade social

Em um cenário atual marcado pela desinformação climática, pela educação ambiental fragilizada e pelo avanço do negacionismo científico, frente à escalada da crise climática, comunicar fenômenos naturais com rigor é uma responsabilidade pública.

Imagens incorretas se espalham rapidamente nas redes sociais, amplificando erros e confundindo a percepção coletiva sobre riscos climáticos reais.

Não por acaso, o mais recente relatório do Fórum Econômico Mundial aponta que “desinformação e informação falsa” estão entre os 4 principais riscos globais para os próximos 2 a 10 anos.

Em um mundo ultraconectado, onde imagens falam mais rápido que textos, garantir coerência física e científica não é apenas uma questão estética, é um passo essencial para fortalecer a confiança na ciência e no debate público informado.