Cientistas argentinos estudam uma bactéria que poderia proteger o trigo de uma doença perigosa
Pesquisadores da FAUBA e do CONICET estão estudando uma bactéria capaz de degradar uma toxina produzida pelo Fusarium, um grupo de fungos que pode causar danos severos às culturas.

A agricultura está encontrando novos aliados em organismos que sempre estiveram presentes na natureza. Bactérias, fungos benéficos e outros microrganismos estão sendo cada vez mais estudados para nutrir as culturas, estimular seu desenvolvimento e contribuir para o controle de pragas e doenças.
Alguns microrganismos ajudam as plantas a obter nutrientes, enquanto outros podem promover o crescimento ou a tolerância ao estresse; há também aqueles capazes de atuar contra organismos nocivos. O objetivo não é necessariamente substituir produtos convencionais, mas sim incorporar novos mecanismos de ação a estratégias de manejo integrado.
Nessa nova fronteira, surgiu uma linha de pesquisa particularmente interessante proveniente da Argentina. Cientistas da Faculdade de Agronomia da Universidade de Buenos Aires (FAUBA) e do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (CONICET) estão estudando uma bactéria capaz de degradar o ácido fusárico, uma substância tóxica produzida por várias espécies do gênero Fusarium (fungos).
O que é o Fusarium e por que pode afetar severamente o trigo?
Fusarium é um gênero que compreende inúmeras espécies de fungos capazes de afetar diversas culturas. Algumas delas também podem produzir micotoxinas — substâncias que representam um problema ao comprometer a qualidade e a segurança dos grãos.
No trigo, uma das doenças mais significativas é a fusariose (ou fusariose da espiga), também conhecida como "espiga branca". Na Argentina, o principal agente causador é o Fusarium graminearum, e as condições climáticas desempenham um papel decisivo na ocorrência e na severidade da doença.
O problema não se resume à perda de produtividade. A doença pode comprometer a qualidade comercial do trigo, e certas cepas de F. graminearum produzem micotoxinas como o desoxinivalenol, conhecido como DON.
A dimensão potencial do problema é significativa. O INTA registra que 17 epidemias de fusariose ocorreram na Argentina entre 1960 e 2012, com perdas de produtividade chegando a até 70% em casos graves.
Uma bactéria que chamou a atenção dos cientistas
É nesse contexto que entra em cena uma pesquisa realizada no Instituto de Pesquisas em Biociências Agrícolas e Ambientais (INBA) — vinculado à FAUBA e ao CONICET. A equipe vem estudando microrganismos e suas interações com espécies de Fusarium há vários anos.
Uma bactéria apresentou uma característica particularmente interessante: a Burkholderia ambifaria T16, uma cepa originalmente isolada da rizosfera de plantas de cevada. A rizosfera é a porção do solo diretamente influenciada pelas raízes e constitui um ambiente extraordinariamente rico em microrganismos.

Pesquisadores descobriram algo incomum: a bactéria consegue utilizar o ácido fusárico como fonte de carbono, nitrogênio e energia, degradando-o nesse processo.
O ácido fusárico é produzido por várias espécies de Fusarium e pode desempenhar um papel nos mecanismos pelos quais esses fungos afetam plantas e outros microrganismos. Posteriormente, a equipe identificou os genes, as enzimas e as vias metabólicas envolvidos nesse processo natural de desintoxicação.
O teste na cevada que mostrou seu potencial
Para determinar se essa capacidade poderia trazer um benefício tangível para a planta, os pesquisadores realizaram experimentos utilizando plântulas de cevada expostas ao ácido fusárico. A substância prejudicou o crescimento delas, possibilitando a observação de seus efeitos tóxicos.
No entanto, há uma diferença significativa entre esse experimento e a disponibilidade de um tratamento para os produtores. Os resultados não indicam a existência atual de um novo produto comercial capaz de controlar o Fusarium no trigo.
A fusariose está associada principalmente a Fusarium graminearum, e a DON figura entre as micotoxinas que despertam maior preocupação. O estudo envolvendo Burkholderia ambifaria T16 concentra-se no ácido fusárico e ainda não demonstrou controle da fusariose no trigo.
1️¿Sabías q' una bacteria 'come' la toxina de un hongo muy dañino de cultivos?@AgronomiaUBA y @CONICETDialoga aislaron una cepa de Burkholderia que
— Sobre La Tierra | Fac. Agronomía (UBA) (@SLT_Divulgacion) August 11, 2026
degrada el ácido fusárico (toxina de Fusarium)
revierte daños en semillas de cebada
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Por enquanto, o valor da descoberta está em outro aspecto: demonstrar que um microrganismo pode utilizar seu próprio metabolismo para neutralizar uma substância tóxica produzida por certos fungos.
Quantos aliados das culturas ainda restam ser descobertos na natureza?
A questão vai além dessa bactéria. Uma pequena porção de solo contém uma vasta comunidade de bactérias, fungos e outros microrganismos que interagem constantemente entre si e com as raízes das plantas, ao mesmo tempo em que a ciência ainda busca compreender muitas dessas relações.

Muitos dos bioinsumos já utilizados na agricultura derivam dessa diversidade. Existem microrganismos capazes de fixar nitrogênio, aumentar a disponibilidade de nutrientes, estimular o crescimento das plantas, ajudar as culturas a enfrentar estresses específicos ou competir com organismos causadores de doenças.
Pesquisas com Burkholderia revelam outra possibilidade: a identificação de microrganismos capazes de transformar ou degradar substâncias nocivas. Além disso, identificar as enzimas exatas responsáveis por esse processo poderia permitir o desenvolvimento de tecnologias que aproveitem esse mecanismo sem a necessidade de aplicar bactérias vivas.
No entanto, é preciso superar obstáculos significativos, que vão desde novas avaliações de segurança e eficácia até testes em condições reais de produção e a análise da viabilidade de escala. Um resultado de laboratório não equivale, ainda, a uma ferramenta pronta para uso no campo.
Cada microrganismo recém-estudado pode revelar funções desconhecidas e, potencialmente, servir de ponto de partida para uma tecnologia agrícola. Embora a bactéria estudada pelos cientistas argentinos ainda não seja uma solução para a murcha de Fusarium no trigo, ela levanta uma questão intrigante: quantos aliados capazes de proteger as lavouras permanecem ocultos sob nossos pés?