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Ar surpreendentemente frio da Antártica chega à Austrália

A Antártica está esfriando a uma taxa extraordinária nas últimas semanas. Ao mesmo tempo, o leste da Austrália viu uma das tempestades de inverno mais fortes das últimas décadas. Pode existir uma relação entre os dois fenômenos?

As correntes geladas do oceano que cercam a Antártica isolam o continente das circulações mais quentes e ajudam a manter suas baixas temperaturas.

A Antártica é, sem dúvida, o continente mais frio do planeta, tanto em médias, o que fica evidente pela sua localização, quanto em extremos, já que seus mínimos absolutos, com um recorde de -89,2ºC e estimativas inferiores a -90ºC, estão ainda abaixo dos lugares mais frios da Sibéria. Em todo o continente, uma corrente oceânica circumpolar e um intenso jato polar são responsáveis por isolar a Antártica de massas de ar mais temperadas e massas de água de latitudes mais baixas. No entanto, o resfriamento que está ocorrendo este ano, durante o início do inverno austral, é, sem dúvida, muito marcante.

Não só as temperaturas estão mais baixas que o normal, mas também as anomalias de temperaturas estão espalhadas por todo o continente, estando até 7ºC abaixo do que se é esperado, com regiões com anomalias de até 15ºC abaixo da média. Trata-se de um fenômeno extraordinário e que contrasta com as anomalias positivas que estamos acostumados a observar nos últimos anos nas latitudes polares, especialmente no Ártico.

Além disso, não só a Antártica está esfriando, mas também o ar acima do oceano que a circunda. Isto contrasta com as temperaturas médias ou ligeiramente acima da média das latitudes médias e subtropicais, algo que está se traduzindo em uma forte instabilidade baroclínica que está se propagando por todo o Hemisfério nas latitudes médias.

Jato mais intenso e tempestades destrutivas

A causa deste fenômeno é, atualmente, desconhecida e pode ainda ser mais de um fator. Um fato marcante é a grande velocidade que o vórtice polar estratosférico está adquirindo nesta estação. Na troposfera, o jato também está atingindo velocidades muito altas, chegando a 350 km/h tanto em áreas da Austrália como no Pacífico sul, nas proximidades da América do Sul. O que está claro é que o contraste de temperatura entre as latitudes subtropicais e polares está sendo muito significativo este ano, como consequência destas anomalias e das tempestades, que são alimentadas justamente por estas diferenças térmicas e estão ganhando bastante intensidade.

A Austrália está sendo a primeira a notar a atividade dessas tempestades excepcionalmente fortes. Nos dias atuais, enchentes, baixas temperaturas e nevascas estão sendo notícia, principalmente, no oeste do território. Tanto que em Sidney foi registrado aquele que é, provavelmente, o dia mais frio desde 1984 e as nevascas estão atingindo áreas muito incomuns. Além disso, no Estado de Victoria as chuvas estão causando fortes inundações que já custaram duas vidas.

Nos próximos dias, as condições meteorológicas adversas continuarão em toda a região, com expectativa de novas chuvas e fortes rajadas de vento, que em alguns pontos já ultrapassaram os 110 km/h. Embora este tipo de tempestade possa ocorrer em vários cenários, tudo aponta para a massa de ar antártica extremamente fria como a principal causa dessas condições meteorológicas extremas e do desenvolvimento explosivo dessas tempestades.