Um processo oculto pode estar tornando o calor úmido pior do que o esperado, afirma novo estudo
Um novo estudo revela que a mistura de ar seco em plumas de ar quente ascendentes pode contribuir para o acúmulo de calor e umidade próximo ao solo, aumentando o risco de condições perigosas de calor úmido.

À medida que o clima aquece, estudos continuam mostrando como o calor extremo pode afetar nossa saúde, aumentando o risco de doenças relacionadas ao calor.
Cientistas também estão aprendendo mais sobre os processos atmosféricos que desencadeiam e intensificam o calor perigoso. Um novo estudo aponta para um fator oculto que poderia tornar as condições de calor e umidade ainda piores.
O papel inesperado do ar seco em agravar o calor úmido
O ar seco pode não parecer um ingrediente para uma umidade opressiva. No entanto, de acordo com um novo estudo publicado na revista Geophysical Research Letters, o ar seco pode, indiretamente, permitir que condições mais quentes e úmidas se desenvolvam próximo à superfície.
A principal interação ocorre na baixa troposfera, a camada mais próxima da superfície da atmosfera. Quando uma coluna de ar quente e úmido sobe, parte do ar seco circundante se mistura a ela por meio de um processo conhecido como 'arrasto' (entrainment). Isso faz com que a pluma perca força e permita que mais calor e umidade se acumulem perto do solo.

O acúmulo de umidade e calor eleva as temperaturas de bulbo úmido. A temperatura de bulbo úmido mede tanto o calor quanto a umidade, indicando a dificuldade que o suor tem para resfriar o corpo.
Testando o efeito da mistura de ar seco
Para verificar a importância desse processo, os pesquisadores R. Jha e M.P. Byrne, da Universidade de St. Andrews, compararam décadas de registros atmosféricos com simulações de modelos climáticos. Eles utilizaram dados atmosféricos do período de 1991 a 2020 e simulações de modelos climáticos com diferentes níveis de mistura de ar seco.
O modelo padrão produziu um resultado semelhante, mas a porcentagem caiu de 79% para 37,5% quando a mistura de ar seco foi removida.
Outros processos também podem contribuir para esse acúmulo próximo à superfície. No entanto, a grande diferença entre as simulações sugere que a mistura de ar seco é uma parte importante do processo.
Por que a descoberta é importante em um clima mais quente
Os pesquisadores também testaram um cenário com temperaturas da superfície do mar mais elevadas. Ao incluir o efeito de arrasto, o calor e a umidade na superfície ultrapassaram o limite tradicional em 85% dos locais estudados.
À medida que a baixa troposfera aquece, ela consegue reter mais vapor d'água, o que significa que é necessária uma quantidade maior de umidade para que o ar fique saturado. Isso pode acentuar o efeito de ressecamento sobre as plumas ascendentes, permitindo que mais calor e umidade se acumulem nas camadas inferiores.
As descobertas acrescentam mais uma peça ao quebra-cabeça dos futuros extremos de calor. Elas também mostram por que as temperaturas, por si sós, podem não captar a sensação de perigo de um dia de verão.
Referência da notícia
R. Jha, M. P. Byrne. Entrainment-Based Framework for Understanding Extratropical Moist Heat Extremes.