O que é o Dipolo do Oceano Índico?

Após o término do El Niño, outro padrão de teleconexão veio à tona, o Dipolo do Oceano Índico. Apesar de ter uma origem distante, esse dipolo influencia a circulação atmosférica do Brasil, principalmente durante a primavera!

Paola Bueno Paola Bueno 15 Out. 2019 - 11:46 UTC
O Oceano Índico influencia o clima no Brasil, durante a primavera, durante as ocorrências do Dipolo do Oceano Índico.

A atmosfera é um sistema complexo que apresenta uma grande variabilidade em diferentes escalas de tempo e espaço. Alguns desses padrões de variabilidade são observados na circulação atmosférica, outros na oceânica, e muitos estão associados ao acoplamento do oceano e atmosfera!

Os oceanos Atlântico, Pacífico e Índico interagem com o restante do globo por meio de teleconexões oceânicas e atmosféricas, quando ocorrem anomalias nesses oceanos, elas são propagadas pela atmosfera, impactando regiões remotas do planeta. Para realizarmos previsões climáticas (meses à frente), observamos os padrões de anomalia dos oceanos para tentar prever o clima de determinado lugar. Para a previsão climática do Brasil, geralmente olhamos para os oceanos Pacífico e Atlântico, porém, o Oceano Índico também é importante!

O principal padrão observado no Índico é o Dipolo do Oceano Índico (DOI). O termo dipolo se refere a duas áreas de sinais opostos, dessa forma, quando falamos de um dipolo no oceano, nos referimos a duas áreas que apresentam anomalias de temperatura da superfície do mar (TSM) opostas. No caso do DOI o dipolo ocorre entre o Índico oeste, próximo à costa leste da África, e o Índico leste, na região da Indonésia. Quando observamos anomalias de TSM acima da média no Índico oeste e abaixo da média no Índico leste, associado ao deslocamento para oeste do centro de convecção, temos uma fase positiva do DOI. Quando temos as condições opostas, temos uma fase negativa.

Como o Dipolo do Oceano Índico (DOI) afeta o Brasil?

Por ser um padrão que possui maior influência sobre os países da Ásia, África e Oceania, poucos estudos focaram nos seus impactos sobre a América do Sul e o Brasil. Um deles foi o trabalho de Steven C. Chan e colaboradores, de 2008, onde, através de dados observacionais e experimentos numéricos, eles puderam inferir que o DOI afeta a circulação atmosférica sobre o Brasil através de um trem de ondas de Rossby.

Composições de anomalia de TSM (a esquerda) e anomalia de chuva e eventos em 850hPa sobre o Brasil em eventos de DOI positivos. Adaptado de Chan et al., 2008.

Esse trem de ondas de Rossby, que parte do Oceano Índico, é constituído por circulações ciclônicas e anticiclônicas anômalas, uma seguida da outra, em sequência, como um trem, ligando o Índico com a costa brasileira. Em uma intensa fase positiva do DOI, geralmente, esse trem de ondas faz com que um anticiclone anômalo se posicione sobre sudeste do Brasil, inibindo a convecção em grande parte do Brasil. Enquanto intensifica o fluxo de umidade, através dos Jatos de Baixos Níveis, criando uma espécie de dipolo de anomalias, com chuvas acima da média no Sul, na bacia do Rio Prata, e chuvas abaixo da média no Brasil central.

O evento de DOI de 2019

O Prof. Dr. Saji N. Hameed, um dos descobridores e principal especialista em DOI, disse, em uma entrevista para a The Weather Channel, que o episódio de DOI de 2019 pode ser um dos mais intensos da história. O último valor semanal do índice DOI foi de +2,15 °, esse é o maior valor observado no conjunto de dados da Agência Australiana de Meteorologia (BOM), que se estende de 2001 até o presente.

Um evento de DOI geralmente começa a se manifestar no início do inverno e atinge seu pico de intensidade, entre os meses de outubro e novembro. O evento desse ano mostra essa tendência, por isso esperamos que o evento fique ainda mais intenso no próximo mês, modulando o clima do Brasil durante a primavera, principalmente, e início do verão.

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