Como o Oceano Índico influencia o clima no Brasil?

Grande parte dos padrões de teleconexões que influenciam o clima do Brasil tem origem nos oceanos Pacífico e Atlântico, mas não podemos menosprezar aqueles que vêm do Oceano Índico. O último episódio de seca do verão de 2013/2014 serve como exemplo!

Paola Bueno Paola Bueno 03 Set. 2019 - 11:31 UTC
A grande seca do verão de 2013/2014, que secou o sistema Cantareira, esteve associada a um padrão de teleconexão vindo do Oceano Índico. Foto: EBC.

A principal característica do clima terrestre é sua variabilidade. Isso fica evidenciado na ocorrência de verões mais quentes, invernos mais frios que o normal, secas prolongadas ou chuvas em excesso, por exemplo. Essa variabilidade depende de uma série de fatores, o principal deles está associado ao que chamamos de padrões de teleconexões atmosféricos.

Teleconexão significa conexão a distância e na meteorologia esse termo é usado para explicar como a anomalia observada numa parte do planeta está associada à outra localizada a quilômetros de distância. Ao falarmos da variabilidade do clima no Brasil geralmente focamos em grandes padrões de teleconexões que ocorrem nos oceanos próximos, como o El Niño Oscilação Sul, no Pacífico, e as variações de temperatura da superfície do mar (TSM) do Atlântico, além de padrões que circundam o globo, como a Oscilação de Madden Julian (OMJ).

Porém, as vezes estas variabilidades não vêm de nenhum desses padrões, o que nos faz procurar respostas em regiões mais distantes, como o Oceano Índico! Geralmente os padrões de anomalias de TSM no Índico afetam diretamente os países africanos, do Oriente Médio, Ásia e Austrália, porém, de forma indireta, ele também afeta a América do Sul. Isso porque a atmosfera se comporta como um fluido, de forma que a perturbação num ponto gera uma série de ondas que se propagam pelo globo. Por exemplo, podemos imaginar uma pedra caindo na superfície calma de uma piscina, seu impacto gera uma série de ondas que se propagam em várias direções.

O verão anômalo de 2013/2014

O episódio de seca severa que ocorreu no Sudeste do Brasil no verão de 2013 e 2014, associado a uma forte onda de calor, foi um exemplo de evento climático extremo associado a um padrão de teleconexão vindo do Oceano Índico. Essa associação foi revelada num estudo publicado na revista Nature Geoscience feito por uma equipe de pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina, do Centro de Excelência em Extremos Climáticos da Austrália e da NOAA, nos Estados Unidos.

Mecanismo de formação e trajetória da perturbação atmosférica que provocou a seca e o calor no verão de 2013/2014. Adaptado de Nature Geoscience.

No verão de 2013/2014 uma alta pressão anômala se instalou sobre o Sudeste do Brasil impedindo o avanço dos sistemas frontais que costumam organizar as Zonas de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), responsáveis por grande parte do volume de chuvas anual dessa região. De acordo com esse estudo, uma intensa área de convecção (formação de nuvens profundas), associada a OMJ, sobre o Oceano Índico gerou uma perturbação que se propagou através de uma onda planetária (onda de Rossby), percorrendo todo o Pacífico Sul e chegando até o Atlântico Sul, formando a alta pressão, associada a um bloqueio atmosférico.

Além da supressão das ZCAS, esse boqueio atmosférico fez com que a TSM do Atlântico Sul aumentasse expressivamente, atingindo temperaturas 3°C da média, gerando um severo episódio de onda de calor oceânica. Os autores também destacam que há uma tendência de aumento não só da frequência, mas também da intensidade, tamanho e duração desse tipo de bloqueio. Isso mostra que eventos em regiões remotas podem ter grandes impactos climáticos no outro lado do mundo!

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